Sabrina Noivas 115 - The Corporate Wife

Do escritrio... para o altar! Erin no tinha certeza se tomara a deciso acertada. O lindo, maravilhoso... e milionrio... Slater Livingstone a pedira em casamento. E ela, a simples, comum... e mortal... Erin Reynolds, recusara! Como secretria de Slater, Erin j desempenhava algumas funes de esposa: organizava a agenda dele, recebia os clientes, resolvia assuntos de sua vida particular. Mas isso, certamente, no era base suficiente para um casamento. Por que, ento, Erin se sentia to arrependida de no ter dito "sim"?

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 2000
Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida

Srie Marrying The Boss

Agenda, Attraction! (1998) by Jessica Steele
Big Bad Dad (1998) by Christie Ridgway
Temporary Engagement (1998) by Jessica Hart
Boardroom Proposal (1999) by Margaret Way
The Boss and the Baby (1999) by Leigh Michaels
The Corporate Wife (2000) by Leigh Michaels  Sabrina Noivas 115

   

   






















CAPTULO I

Erin largou o telefone e pegou os recados escritos em papel amarelo que sua secretria acabara de colocar no canto da escrivaninha. E pediu:
	Sarah, voc quer ver se consegue quatro entradas para o bale O Lago do Cisne que ter lugar na quinta-feira em Forest Park? A secretria do senador diz que ele est louco para assistir a um bale ao ar livre.  Erin franziu a testa quando leu melhor o recado.  Um minuto. Jessup, o mordomo do sr. Slater, telefonou para dizer que as flores no so? No so o qu?
	Frescas, presumo  disse Sarah.  Jessup no entrou em detalhes. E eu lhe disse que voc no poderia falar agora sobre esse jantar porque estava ao telefone organizando o prximo. E ele apenas suspirou.
Erin sorriu e disse:
	Houve muitos desses jantares ultimamente. Vou me comunicar com Jessup. Suponho que deva saber mais detalhes antes de encomendar flores da mesma floricultura.
	Eles mandaram um centro de mesa que parecia para cemitrio e no para uma festa  comentou Sarah.  At as tulipas e as margaridas estavam murchas. O sr. Livingstone pediu tambm para voc ir ao escritrio dele quando tiver um minuto disponvel. E Cecile Worth deseja lhe falar.
	Cecile quer falar comigo?  Erin largou o telefone que j estava de novo em suas mos.  No  com o sr. Livingstone que deseja falar?
	No. Imagine s, Cecile nem me pediu para falar com ele. Quer apenas falar com voc.
Erin sacudiu a cabea. A ltima eleita de Slater Livingstone, e a mais brilhante das amantes, querendo falar comigo, Erin Reynolds, uma simples secretria?
	Voc tem o nmero dela, Sarah?
	Claro que sim. Mas nem ser necessrio ligar. Ela est a sua espera na extenso.
	Quer dizer que deixou a grande Cecile esperando por mim?
	No exatamente. Eu lhe disse que voc poderia levar algum tempo para ficar livre, porm ela insistiu em permanecer  espera.
	No  um bom sinal.  Erin clicou o nmero de Cecile.
 Sra. Worth? Sinto muito por deix-la esperando.
	Oh, no perca seu tempo desculpando-se. Eu estava aqui sentada sem fazer nada mesmo; por isso aguardei.
Por que ser que mulheres cheias de maneiras polidas eram mais perigosas do que as abertamente venenosas? No que Cecile no fosse mestra em ambas as atitudes.
Mas no se preocupe  Cecile continuou.  Sobre a festa desta noite...
No se esquea de que voc ser a anfitri, uma voz soou na mente de Erin.
...espero que os convidados no sejam montonos como os da ltima vez.
Na ltima vez, os convidados de Slater Livingstone, Erin lembrou-se, incluam um fsico vencedor do prmio Nobel, e sua esposa, uma professora de universidade. Erin se encantara com eles, mas com certeza Cecile apreciava diferentes valores.
	Concluo, pelo tempo que voc est demorando para responder, que os atuais so do mesmo tipo. So?  Cecile interrogou,  maldosamente.  Mas no precisa responder. Contar-me que so fascinantes quando sabe que no o so, no melhora as coisas.
Contudo, voc no poderia convencer Slater a receber os convidados em outro lugar alm de no abarrotado apartamento dele?
At uma mudana de cenrio ajudaria a animar a noite.
Abarrotado no seria o adjetivo adequado para descrever o lar de Slater Livingstone; mas tentar mudar a opinio de Cecile seria em vo. Por isso Erin rangeu os dentes e calou-se.
Ao menos se fssemos a um clube poderamos nos divertir mais, danar e conversar com outras pessoas.
Cecile parecia uma criana chorona, Erin concluiu sem o menor sentimento de caridade.
	 exatamente por isso que os jantares do sr. Livingstone necessitam de privacidade, sra. Worth. A conversa nessas ocasies  mais discreta, no o tipo que se mantm em lugares pblicos onde todos podem ouvir o que se fala.
	Nesse caso ele deveria limitar essas reunies ao escritrio, e deixar as noites para o divertimento.
Embora Erin no concordasse com isso, pensava algumas vezes se a preocupao de Slater com seus negcios explicava por que escolhera Cecile, com seu ar de sofisticao, to atraente. A mulher estabelecia um contraste, sem a menor dvida.
Mas no era verdade que ele no se divertia. Slater jogava basquete e golfe com bastante regularidade para manter um handicap baixo, embora Cecile achasse que, como em geral jogava com clientes ou amigos de negcios, ou at com rivais, os jogos no significavam prazer.
	As nicas coisas pelas quais ele se interessa, alm de negcios, so os velhos livros embolorados  Cecile declarou com desdm.  Que divertimento!
Erin tentou no sorrir. Alguns dos velhos livros embolorados comprados por Slater Livingstone haviam sido entregues no escritrio havia duas semanas. Eram dois exemplares raros de primeira edio e uma conhecida" novela moderna.
Cecile continuava falando, porm mais consigo mesma do que com Erin.
	Apenas uma semana em Nova York, era o que eu desejava  ela enfim disse.
No momento, talvez, Erin pensou, mas seria o fim das reclamaes?
	Naturalmente que Slater no iria me levar. Esse aborrecido costume de ele no me incluir no planejamento do que faz... Jamais me pergunta o que eu quero.
Erin achou que ouvira bastante, e disse:
	Admira-me, Cecile, voc aguentar isso tudo.
	Admira-se? Muito bem. Ento olhe, Erin querida, no apenas para Slater, mas para a conta bancria dele, e pode entender do que estou falando. Mas veja, amanh mandarei a voc minha lista de convidados, por isso, na prxima vez que tiver de organizar essas festas montonas, inclua algumas pessoas que no esto prximas a ser embalsamadas. Tudo bem?
Erin mordeu a lngua para no responder, mas no teria sido necessrio. Cecile batera o fone.
O pior de tudo isso, Erin admitiu, era que poderia ir direta-mente ao escritrio de Slater e contar-lhe o que a grande Cecile dissera sobre ele. Porm, com certeza, Slater riria do fantstico humor de sua escolhida. Obviamente Cecile sabia disso, do contrrio no teria sido to descuidada sobre o que dissera.
Erin sacudiu a cabea e pensou que, felizmente, a vida particular de Slater Livingstone no era de sua conta. Se escolhera se fazer de tolo com uma mulher frvola e vazia como Cecile Worth, era problema dele.
Quando Erin entrou na sala de Sarah, a secretria encarou-a, apreensiva.
	Finalmente  disse.  O sr. Slater comeou a agir como um dinossauro de repente.
	E voc me reservou para a sobremesa dele?
	Bem, o homem j perguntou duas vezes por que voc se demorava tanto. E eu no quis lhe dizer que estava conversando com Cecile.
	Por isso inventou desculpas? Obrigada, Sarah.
	No sabia se voc queria revelar onde estava  comentou a secretria.  Se as duas estivessem apenas trocando ideias de mulher para mulher...
	Se eu algum dia comear a aceitar Cecile como amiga  disse Erin com firmeza , mate-me. Ok?
Erin bateu na porta do escritrio de Slater Livingstone e, sem esperar pela resposta, entrou.
A sala era espaosa, ocupando um canto em um dos mais modernos edifcios para escritrios em St. Louis. Atrs da escrivaninha, uma parede de janelas oferecia uma vista assombrosa do Arco de Gateway. O sol do fim da tarde brilhava nas vidraas e, enquanto Slater Livingstone levantava-se da escrivaninha de bano e vidro, o monumental brilho atrs dele contornou-lhe a cabea.
Quase como uma aurola, Erin pensou, fantasiando o cenrio. Ou um capacete de cavaleiro da Idade Mdia.
Ela no precisava analisar o aspecto de seu chefe para saber e Cecile Worth quisera dizer, mas analisou-o, de qualquer forma Aos trinta e cinco anos de idade, Slater Livingstone no era bonito no sentido exato da palavra; o rosto tinha traos marcantes demais, e as orelhas eram grandes. Mas os olhos, lindos, castanhos com reflexos dourados, eram rodeados por clios longos e espessos que causariam inveja a qualquer modelo.
Mais importante ainda, no havia mulher ou homem no mundo que o ignorasse. Porm ele parecia no perceber como chamava ateno. Os dois sentaram-se para conversar.
Embora isso tivesse acontecido uma centena de vezes durante o ano em que Erin trabalhava como assistente, no tinha ideia do que havia em Slater que lhe causava aquela reao. Ele era alto, de ombros largos como os de um general, sempre bem vestido. Olhava diretamente nas pessoas, tinha aperto de mo firme, sorriso sincero. Mas essas qualidades existiam em muitos outros homens. Em homens que no atrairiam a ateno no instante em que entravam numa sala, como acontecia com Slater.
	Al, Erin.  Ele acenou com a mo.
Seria a voz?, ela pensou. Grave e quente, suave como a de um escocs de vinte anos, inspirava confiana e afeio. Boa coisa ele ter escolhido um meio honesto de fazer a vida, pois Slater Livingstone poderia facilmente ser um dos vigaristas de maior sucesso no mundo.
	Desculpe-me por ter demorado tanto  disse.  Eu falava com Cecile. Ela queria me fazer as ltimas perguntas sobre a festa desta noite.
	O que usar, sem dvida.  Ele no pareceu interessado em saber.  Voc lhe mandou as flores, no?
	Naturalmente.  Eu gostaria de ter lhe mandado um arranjo feito de cravos de defunto, Erin pensou.
	Presumo que tudo tenha sido combinado entre vocs duas.
	Sim, senhor. Se deseja um relatrio sobre os planos da  visita do senador no fim da semana... 
	No. Tenho certeza de que voc mantm tudo sob controle.
Apenas diga-me quando e onde devo aparecer.
	E o que usar?  A pergunta saiu espontaneamente, antes que Erin pudesse refletir uma segunda vez.  Desculpe-me. Um longo sorriso iluminou o rosto de Slater e seus olhos brilharam.
	Isso quer dizer que voc planejou algo diferente?
	No muito, na verdade. Mas o senador gosta de teatro ao ar livre, e Cecile mencionou que apreciaria se no fosse em seu apartamento. Por isso imaginei um piquenique em Forest Park, antes do bale.  Erin no sabia de onde vieram aquelas palavras; nada estivera em sua mente antes. Mas a ideia de
ver Cecile sentada de pernas cruzadas num cobertor, tentando equilibrar no colo um prato de frango frito, feijo e salada debatatas, quase a fez rir.
	Por que no?  observou Slater.  Quando presidente, Franklin Delano Roosevelt uma vez serviu cachorro quente aos reis da Inglaterra. Por sinal, almocei com um amigo hoje, e comemos cachorro quente. Ele me perguntou muito sobre as novidades de nossos negcios. O homem no sabia nada, da eu concluir que nossos empregados esto sendo discretos. Sarah  isse a voc que eu estava agindo como um furaco?
	No propriamente  Erin respondeu devagar.  Mas como um dinossauro. Porm no quis ser maldosa. Ela ouve falar tanto sobre dinossauros por causa de seu filho que os tem sempre na cabea.
	No precisa defender Sarah. Estou irritado por outros motivos.
Slater estendeu um envelope a Erin onde havia um monograma, e ela gelou. Na ltima vez em que Hermione, a tia de Slater, lhe escrevera, Erin passara duas longas semanas remexendo arquivos por toda St. Louis -procura de dados dos Livingstone mortos havia muitos anos. Mas... por que isso irritara Slater? E tanto?
	Ela por certo no est pedindo mais dados sobre a rvore genealgica da famlia  disse Erin  Por que a visita o deixa  de mau humor?
	Por qu?  Slater franziu a testa.
	Qualquer que seja o trabalho voc o entregar em minhas mos e se esquecer do caso.
	Verdade. E  o que fao agora.  Ele riu muito.
	Isso  tudo?  perguntou Erin, pegando a carta.  Mesmo?
	Quando voc vir a lista de questes, poder mudar de opinio.
Erin passou os olhos pela carta e comentou:
	Agora entendo o que o aborreceu.  a insistncia dela de que es t na hora de voc acrescentar alguns brotos em seu galho da rvore de famlia, no ?
	Como? Onde ela diz isso? Ela no diz. Voc no esperaria que sua tia Hermione fosse to indiscreta indo direto ao assunto e lhe pedir que se casasse para ter uma filha com o nome dela? Esperaria?
	Agora estou pensando nisso.  Slater sorriu.  Uma menina rosada, de trancinhas, chamada Hermione? Embora no possa me imaginar dizendo: como essa cenoura, Hermione. Pare de puxar a cauda do gato, Hermione.
	Voc pode cham-la de Herm  Erin sugeriu.  Afinal, acho que ela disfarou seu pedido muito bem.  Erin pegou a carta de novo e, imitando o sotaque de Boston, disse: Slater, j pensou em arranjar uma anfitri estvel para sua casa? S uma mulher, e que saiba exatamente o que voc de seja? Faria sua vida bem mais fcil, como a de sua secretria Erin, tambm.
	O qu? Fazer sua vida mais fcil, Erin? No me considero to difcil assim.
	No digo impossvel, mas com certeza bem difcil  comentou Erin.
	Devo ter herdado isso de tia Hermione. Uma certeza absoluta acerca das cartas dela  que tiram a mente da gente de outros problemas.  Slater riu.
	Ela tem um ponto em mente, voc sabe. Quer que voc tenha uma pessoa responsvel por tudo em sua vida, pelas festas em especial.  A menos, claro, que no acabe sendo Cecile Worth essa pessoa.
Ento, com Cecile, a vida de Erin no seria fcil, at bem mais difcil e insuportvel.
	Cuidado, Erin, ou voc vai ficar parecida com tia Hermione. 
	Eu, senhor? Nunca sugiro essas coisas a ningum.  Ela tornou a pr a carta no envelope.  E s?
	Por enquanto. No h pressa em responder  carta de Hermione. Ela vem lidando com a rvore genealgica da famlia h quarenta anos. Voc no quer dar uma passada em meu apartamento para verificar os ltimos detalhes do jantar de hoje . noite?
	H mais alguma coisa que voc deseja que eu faa?
	Fique por l at a festa comear, ok? Poderei demorar para voltar e no acho interessante os convidados chegarem e no encontrar ningum para receb-los alm do mordomo.
	No acho interessante as visitas serem recebidas pelos funcionrios da firma tampouco. Mas ficarei l.
	Obrigado.  Ela j estava saindo da sala quando Slater disse:  Mais uma coisa, Erin.
	Pois no?
	Sobre a carta de tia Hermione. Por que voc tem tanta certeza de que eu no me casarei? Acha, sem a menor dvida?
Havia centenas de maneiras para Erin responder a essa pergunta, e todas elas verdadeiras. Porque todas as mulheres que voc namorou o ano inteiro no duraram mais do que seis semanas. Porque s vezes penso que deve escrever os nomes delas atrs da pulseira do relgio para se lembrar de com quem est no momento. Porque est mais casado com o trabalho do que ficaria com qualquer mulher.
Mas Erin no respondeu nada. Se tivesse mais coragem, poderia perguntar: Posso anunciar seu noivado com Cecile Worth esta noite? Ao menos ele pararia de fazer perguntas ridculas.
A menos que estivesse pensando em se casar de fato com Cecile Worth...
Por certo no. Slater tinha muito bom senso para isso, pensou Erin.
Porm, se tal coisa acontecesse, deixaria aquele emprego e procuraria outro.
Ela estava entrando na floricultura quando ouviu algum chamando-a.
	Al, Dax.  Erin tentou cumpriment-lo com indiferena.
Dax Porter andava rodeando o escritrio mais do que ela gostaria, convidando-a para sair, levando coisas que poderiam ser entregues pelo correio, contando piadas a Sarah. O fato de ela no haver aceito nenhum convite no pareceu desanim-lo.
	Uma mulher bonita como voc no deveria comprar flores para si prpria  ele disse.
	Obrigada, Dax.  E dirigindo-se ao vendedor, ela continuou:  Tnio, preciso de uma dzia de rosas de haste longa, brancas, para serem levadas ao apartamento do sr. Livingstone.
	Antnio comeou a selecionar as flores imediatamente e Dax observou:
	Outra festa? Se a pessoa pode considerar uma festa negcio, festa deve ser algo bastante desagradvel.
	Mas so essas festas desagradveis que pagam nosso salrio, Dax. Por exemplo, se Tnio levar a conta a Sarah, ser pago no ato.
 Desculpe  Dax sussurrou.  No quis insultar seu precioso Livingstone, Erin.  Ele tirou uma rosa vermelha do recipiente de gua e deu-a a ela, dizendo:  A mulher que sempre compra flores para os outros, aqui est uma para ela.
	Obrigada, Dax.
Se Cecile considerava o apartamento de Slater abarrotado, horrvel, devia ter sua cabea examinada, Erin pensou enquanto cumprimentava o porteiro do prdio e entrava no elevador art dco, para a cobertura. Embora o edifcio tivesse sido construdo havia cem anos j, conservava o mesmo luxo e apenas abrigava pessoas de categoria social muito alta.
Quando tinha tempo, Erin adorava apreciar a vista dos outros prdios da vizinhana, de valor arquitetnico notvel. Porm naquele dia no haveria chance. Estava com pressa.
Ela tocou a campainha e Jessup abriu a porta.
	Eu tinha certeza de que poderia "confiar na senhora, senhorita  ele foi logo dizendo.
	O que h de errado?
	As flores, naturalmente. E o servio de bufe no mandou o garom extra, conforme pedimos. Disseram que o rapaz ficara doente e que no tinham um substituto.
	Eu posso ficar organizando as coisas na cozinha enquanto voc ajuda os garons, Jessup  sugeriu Erin.
	Isso seria timo, senhorita. Naturalmente... haver mais problemas. As coisas sempre vem juntas. Porm, agora que a senhora se encontra aqui...
	Voc est confiando em mim para evitar desastres, Jessup? Mas acontece que eu confio em voc. Venha, tudo sair bem. Comece a fazer uma lista do que ser necessrio se fazer a cozinha, que vou ver as flores.
E Jessup estivera certo. O centro de mesa entregue horas antes parecia ter ficado sem gua durante muito tempo.
Enquanto Erin dava um jeito nas flores, Jessup entrou na sala, anunciando:
	Srta. Reynolds, receio que as visitas estejam chegando a qualquer instante.
	E o sr. Livingstone ainda no est aqui?
	Chegou minutos atrs e est trocando de roupa. Porm a sra. Worth no chegou.
Erin olhou no relgio. Ela dissera a Cecile quando a festa comearia, e j passava muito da hora em que uma anfitri cuidadosa deveria estar pronta para receber os convidados.
	Tudo bem, Jessup, relaxe agora. As bebidas j foram postas na sala?
	A bandeja j havia sido preparada e se encontra em seu lugar de sempre.  Jessup colocou o centro de flores na mesa e comeou a remover as flores murchas.  Se a senhora quiser se arrumar um pouco...
Erin olhou para seu costume bege, amassado demais depois de um dia de trabalho no escritrio para ser melhorado assim to facilmente. Mas, de qualquer maneira, aceitou a sugesto do mordomo, dizendo:
	Voc honestamente acha que minha roupa vai melhorar?
 E foi para a ala dos dormitrios.
Nunca antes passara para a parte mais ntima do apartamento. Mas tinha de admitir que estava curiosa para ver como era. A sala e a sala de jantar, com seus tetos altos e molduras escuras de carvalho, revelavam o toque de bom gosto do decorador, finalizando com os tapetes orientais e mveis elegantes. Eram peas confortveis como o amplo espao permitia. Apesar disso, Erin duvidava que Slater gastara muito tempo naquilo tudo.
Ela presumia que a sala oposta  sala de jantar, do outro lado do hall, era um escritrio, mas nas outras visitas que fizera ao apartamento as portas estavam fechadas. Agora, surpreendera-se ao ver as portas, ou melhor, os painis corredios, parcialmente puxados para os lados e embutidos nas paredes. Erin no resistiu  tentao de espiar o interior.
Alm das portas semi-abertas havia um arranjo maravilhoso, e os olhos dela arregalaram-se em espanto. Apesar de haver uma escrivaninha no centro da sala, o aspecto era muito diferente do escritrio onde Slater passava seus dias. Ali, o teto era bem alto e uma escada em espiral conduzia a um balco que contornava os quatro lados da sala. As paredes estavam forradas de prateleiras cheias de livros. Muitas tinham portas de vidro e atrs dessas portas brilhava o couro das velhas encadernaes.
Livros embolorados, Cecile dissera. E, para uma pessoa que no apreciava a beleza, no apenas das velhas encadernaes como tambm das palavras que os livros continham, aquela sala talvez parecesse desagradvel.
Erin respirou fundo, absorvendo o odor do couro, da tinta velha, do papel j frgil.
No havia apenas livros antigos no local. Mas tambm uma variedade enorme de obras modernas. Tratava-se de uma biblioteca bem usada e amada.
"De uma coisa estou certa", Erin disse a si mesma, "Cecile no v nada de bom aqui".
E se perguntava se Siater reconheceria as boas qualidades das pessoas, como reconhecia em livros.

CAPTULO II

Erin fez o que pde com os limitados recursos, mas ainda sentia-se inadequada quando saiu do quarto de hspedes com a maquiagem retocada e a saia alisada da melhor maneira que pde. Uma blusa de renda ajudaria muito, como tambm um par de brincos e um lindo colar de ouro. Do jeito como estava, iria sentir-se mal junto s outras mulheres. E o pior, era que todas se sentiriam insultadas pelo fato de a anfitri no ter se vestido para a ocasio, ou pela verdadeira anfitri no ter comparecido.
Meio desesperada, Erin examinou cada gaveta e prateleira dos armrios esperando encontrar qualquer adereo esquecido por outras convidadas, talvez bijuteria ou alguma echarpe.
No encontrou nada alm de um saco para roupa suja vazio. Ou Jessup era muito cuidadoso e devolvia os objetos s donas, ou as convidadas de Slater eram muito ordeiras.
Ou ento, ela pensou, as visitas que deixariam coisas, as femininas, claro, no usavam o quarto de hspedes.
E o que voc esperava?, Erin se perguntou. S uma tola assumiria que as mulheres de Slater eram platnicas.
Erin quase topou com Slater na porta da biblioteca quando ela entrava no hall ele fechava as portas semi-abertas. Estava elegantemente trajado com um smoking preto, e qualquer pessoa diria que passara o dia todo organizando a festa.
Erin achou que ele a fitava de um modo diferente. Mas, naturalmente, no esperava encontr-la na ala mais ntima do apartamento.
	Obrigado por ter ficado aqui at o fim, Erin.
	Cecile chegou?
Slater passou os olhos pela sala vazia e respondeu:
	Pelo visto, no.
A campainha tocou, e alguns minutos depois Jessup apareceu com os primeiros convidados. Um casal.
Todos os outros chegaram logo depois, e Jessup comeou a servir as entradas na sala. A campainha tocou de novo. Erin tirou a bandeja das mos de Jessup e mandou que ele atendesse  porta.
Cecile entrou, arrastando a estola de cetim pelo cho e correu ao encontro de Slater, ignorando as visitas.
	Desculpe-me por ter chegado tarde  disse.  Espero no haver perdido nada de interessante.  Ela ofereceu o rosto para ser beijado e lanou um olhar ao redor.  No, vejo que no perdi. Mas que empregada elegante voc arranjou, Slater. Ah, no,  apenas a nossa Erin. Sinto muito, querida, por confundir voc com algo que no .
Por outro lado, Erin pensou, nunca me iludi sobre o que voc realmente .
Ela passou a bandeja para Jessup e disse  convidada com quem falava:
	Talvez mais tarde tenhamos chance de acabar com nossa conversa, sra. Brannagan.
Minutos depois, na cozinha, Erin deu  vasilha da sopa uma violenta mexida e entornou um pouco do caldo ao lado.
Pegou a ponta do avental e limpou o estrago. Jessup lhe deu logo um pano mido e Erin procurou o segundo item da lista.
Terminado o jantar, ela deu muito mais valor aos servios de bufe, aos garons e aos mordomos.
	No sei como voc consegue fazer tudo isso sozinho, Jessup. Eu, de minha parte, pretendo ir logo para casa a fim de descansar  ela comentou.
Jessup colocou o resto da torta de chocolate no aparador e disse:
	O sr. Livingstone me pediu que lhe desse um recado, senhorita. Quer falar com a senhora mais tarde.
	Teria ele se referido, com o "mais tarde", ao escritrio amanh?  ela perguntou.
	No penso ser isso o que o patro tinha em mente. Se quiser esperar na biblioteca, eu lhe levarei uma xcara de ch.
Erin aceitou. No se importava sobre onde descansar. S poderia ter problemas na hora de se levantar uma vez sentando-se agora. Mas talvez nunca mais tivesse outra chance de ver os livros de Slater.
	Levarei tambm um pedao de torta, senhorita  o mordomo acrescentou.
Apesar da proximidade das paredes cheias de livros, e da moblia estofada, a biblioteca estava fria, devido  pouca penetrao da luz do sol. Tudo fora feito de propsito, Erin pensou, a fim de no estragar a encadernao dos livros. Jessup acendeu a lareira e Erin ficou muito satisfeita em frente ao fogo, com sua xcara de ch, o pedao de torta, e a biografia de Napoleo que estava sobre o tapete ao lado da poltrona, com um marcador no captulo doze.
Mas logo ela abandonou a poltrona para apreciar os tesouros que a cercavam.
Por estar distrada observando uma miniatura de livros, no escutou o rudo dos painis que se abriam e fechavam. S quando ouviu a voz de Cecile, olhou ao redor e viu-a numa das extremidades da sala, em lugar bem discreto. Nem mesmo Slater devia saber que ela se encontrava l.
Cecile foi sentar-se no sof, sem ser convidada.
	Finalmente, tudo acabado  ela disse.  Diga a Jessup que nos traga uma bebida, querido. Depois venha aqui e... relaxe comigo.
	Voc j bebeu demais  comentou Slater.  E no estou interessado em relaxar. Eu lhe pedi que fosse minha anfitri, Cecile. Ao concordar, assumiu certa responsabilidade, incluindo, caso necessrio, esconder sua insatisfao quanto a meus convidados.
Cecile encolerizou-se.
Erin teve vontade de derrubar um livro da prateleira para acusar sua presena. Porm suspeitou que Slater poderia considerar jogar um livro no cho pecado maior do que escutar atrs das portas. Ela foi para perto da luz a fim de se fazer visvel, esquecendo-se de que tinha um pequeno livro nas mos.
	O que faz ela ainda aqui?  perguntou Cecile.
	Isso  da minha conta  respondeu Slater rispidamente.
 No da sua.
Slater, ineu pobre inocente, se voc no consegue ver o que ala pretende...
Dirigindo-se a Slater, Erin disse:
	Se pode me desculpar, senhor, eu me vou. Com certeza o que pretende me dizer poder esperar at amanh.
	Por favor, espere, Erin. No serei longo.  Slater ficou no meio do caminho, impedindo-a de sair. Encarou Cecile.  No vamos desviar o assunto da conversa discutindo sobre Erin. Quero falar de voc.
	Slater, pode realmente ser to ingnuo como s vezes demonstra ser?
	Sua anlise sobre mim  duvidosa.
	Voc devia me ser grato por eu ter aguentado aquele tipo de gente pelo tempo que fosse. Eu lhe pedi antes que convidasse alguns de meus amigos...
	Para estabelecer um contraste?  Slater soava perfeitamente corts.
	Naturalmente. Se voc espera que eu faa o papel de anfitri para um grupo de pessoas como esse, o mnimo que pode fazer  deixar-me convidar algumas pessoas interessantes tambm. Na prxima vez...
	Mas, minha cara Cecile, no pensarei em submet-la a essa espcie de tortura de novo.
	Bem, finalmente voc entende como tem me pedido coisas difceis. E, desde que seja mais flexvel sobre quem eu convidar, sem dvida darei minha parte em retorno, aguentando seus amigos de negcios de vez em quando...
	Ns no vamos mais convidar ningum. E voc no ter de ser anfitri neste apartamento nunca mais. Fui bastante claro?
	Est me mandando embora?  Cecile estava atnita.  Depois de tudo o que eu...
	O que voc investiu tentando me prender em suas malhas?  disse Slater.  Por favor, Cecile, para nunca mais se entediar, v embora para algum outro lugar.  Slater tocou a sineta.  Jessup providenciar um txi para voc.
Jessup apareceu to depressa que Erin chegou a suspeitar que ele estivesse escutando atrs da porta. O silncio na sala ficou absoluto.
Slater estava em p, imvel, um cotovelo apoiado no consolo da lareira, como se tivesse realizado o mais difcil trabalho de sua vida.
Erin ficou assombrada. Nunca pensara que Slater tivesse corao mole, mas tambm concluiu que ele nunca hesitaria em usar palavras bem duras, caso necessrio, doesse a quem doesse.
Slater parecia ter se esquecido de Erin. No dirigira o olhar a ela desde que Cecile aparecera na sala. Talvez, Erin pensou, Slater desejara que ela ficasse para servir de testemunha, e agora preferia que se retirasse.
Ela tomou o caminho da porta, mas Jessup apareceu antes de ela sair, dizendo:
	A sra. Worth j foi, senhor.
	Obrigado, Jessup. Chega por hoje. Eu mesmo fecharei o apartamento depois de levar a srta. Reynolds para casa.
	No h necessidade de se incomodar  Erin protestou.  Eu tomarei um txi. Na verdade, eu devia ter sado com Cecile, para livrar Jessup desse trabalho. Mas no posso dizer que lamento por no ter a companhia dela.  Ela sorriu para o mordomo.  No precisa me acompanhar, Jessup.
	Boa noite, Jessup  disse Slater com voz calma, mas de comando.
	Boa noite, senhor.  Os passos do mordomo foram quase inaudveis no cho de mrmore, to leves eram.
	Sente-se, Erin  ordenou Slater, apontando para as poltronas perto da lareira.
Ela no se moveu.
	Se vai me mandar embora tambm...
	Por que motivo?
	No tenho ideia. Mas est dando ordens como se pensasse que eu convencera Cecile a chegar atrasada.
	E sugerir a ela que a melhor maneira de se comportar seria ser rude com meus convidados? Que mulher talentosa voc foi em convenc-la a acreditar nisso! Quer se sentar, por .favor?
Erin obedeceu. A sala estava quente agora e muito agradvel. Ela relaxou os msculos e no sabia que estivera to tensa.
	Como foi a festa?  ela perguntou.
	Muito boa, em todos os aspectos, incluindo no ponto de vista dos negcios. Brannagan se acalmou  medida que o jantar prosseguia e acredito que tudo sair bem agora. Preciso de uma carta de intenes sobre minha escrivaninha amanh bem cedo. Quero-a pronta no instante em que ele decidir assinar.
	Entreguei o rascunho a Sarah esta tarde.
	Voc  adivinha, Erin? Ou apenas confiou que eu apresentaria a proposta a Brannagan esta noite?
	Nem uma coisa nem outra. Apenas fui preguiosa.
	Verdade? Por que preguiosa?
	Naturalmente. Se eu no tivesse rascunhado o documento  tarde, de certo teria de me levantar de madrugada, pensar no caso antes de tomar meu caf da manh, e provavelmente datilografar o documento eu mesma.
	Preguiosa!  Havia um brilho no olhar dele.  E, claro, por preguia ficou trabalhando para este jantar, ajudando Jessup na cozinha tambm.
	No, isso foi para comer as sobras.
Erin esperava que Slater casse na gargalhada, mas ele fitou-a firmemente, e no tinha voz divertida quando disse:
	Voc est sempre presente, Erin, sempre l, antecipando o que  necessrio se fazer, preparando o ambiente...
	Se voc suspeita de que Cecile possa ter algum motivo para suas loucas acusaes, deixe-me dizer-lhe que no estou tentando conquist-lo. Apenas cumpro meu dever.
	Naturalmente  ele concordou.  E cumpre-o muito bem.
Apesar do elogio, Erin no se sentiu entusiasmada, efeito de pura exausto, sem dvida. Porm, ela pensou, se Slater a tivesse prendido l apenas para falar" sobre o contrato de Brannagan, a teria mandado embora no instante em que soubera que tudo j estava preparado. Ela percebeu bem mais tarde que ainda segurava a miniatura do livro na mo. Colocou-o em cima da mesa e disse:
	Posso tomar um txi sozinha, voc sabe, no?
	Gosta desses meus livros?  Slater lhe perguntou, ao ver o exemplar que ela deixara sobre a mesa.
	Suas colees so notveis. Eu no sabia que voc tinha tantas coisas raras e interessantes. Penso que qualquer pessoa...
	Oh, no. Quando entrei aqui minutos atrs, Erin, voc parecia uma debutante que chegara a Tiffany depois de a loja estar fechada. E vi que me enganara.
	 mesmo? Todos dizem que diamantes so os melhores amigos de uma moa, mas eu sempre achei que eles no seriam muita companhia numa noite solitria. Frios demais, duros demais, concentrados demais.
	Concentrados demais?  Slater repetiu, intrigado.
	Sim, todo o fogo est concentrado no interior.  Erin sentiu-se de repente um tanto tola em usar aquela linguagem de fantasia.
	Entendo.  Quase abruptamente, ele acrescentou:  Cecile lhe deve desculpas.
Aquilo foi fascinante, Erin pensou. Se sua descrio, que no tinha nada a ver, trouxera o assunto de Cecile  mente dele, talvez no tivesse sido to difcil para Slater mand-la embora, como parecera, j que as palavras frio, duro, concentrado, o fizeram pensar nela na ocasio.
	Sim, ela me deve desculpas. Por isso voc quis que eu ouvisse aquela discusso?
	Posso me desculpar por ela?
	Duvido que Cecile aprecie algum se intrometer no caso. Alm disso, voc no me deve nada.
	Convidei-a, em primeiro lugar.
	Tudo bem.  Erin sorriu.  Aceito seu arrependimento por isso. E estou muito contente por voc a ter mandado embora. Ela... ela...  Erin recostou-se na poltrona, de sbito cansada para expressar seus pensamentos e com medo de se arrepender do que pudesse dizer.  Ela no  boa para voc.
	Suponho que no queira me contar por que diz isso.
Se ainda no sabe, qual  a razo de eu lhe dizer?, Erin pensou.
	No, na verdade, no quero. E no acredito que voc realmente goste de continuar sentado a para ouvir meu diagnstico. Portanto...
	Voc me lisonjeou esta tarde quando disse que eu no sou o tipo de pessoa que cede a chantagem.
	Mas minha inteno no foi lisonje-lo  Erin protestou.
	Sei que no foi, por isso teve valor.
Slater permaneceu silencioso por algum tempo, olhando para toda a sala como se tentasse memorizar cada detalhe. Depois disse:
	Erin, quer se casar comigo?
Ela fitou-o atentamente, segurando-se no brao da poltrona num esforo para no escorregar e cair no cho.
	Como?  perguntou.
Slater no respondeu. Foi at uma pequena mesa e pegou uma garrafa de bebida.
	Aceita um clice de conhaque?
	No, obrigada. E, se voc precisa de ajuda para repetir a pergunta, vamos parar por aqui com o assunto. No acha melhor?
	No acho, de forma alguma, caso voc queira pensar melhor antes de responder. No reluto em repetir a pergunta, Erin, apenas penso que no nos levar a lugar algum. Prefiro lhe dizer por que lhe pedi isso.
	Contudo no ...
	Necessrio? O que foi que voc me disse ainda na semana passada, acerca da necessidade de se ter todas as informaes antes de se tomar uma deciso, para que seja a certa?
	Eu falava sobre um contrato muito importante.
	E o que eu sugiro no  importante tambm?
No seria melhor, pensou Erin, levar tudo para o lado do humor?
	Bem, por favor, no me diga que a carta de sua tia Hermione inspirou-o a se dar conta de que me ama? Acho a ideia absolutamente absurda.
	D-me algum crdito em saber que voc no  uma idiota para engolir uma histria como essa. Mas tem razo, a ideia  absurda.
Ao menos ele est sendo sensato agora, Erin pensou.
	E no  vaidosa  Slater prosseguiu.  Sabe muito bem que uma declarao de afeto, baseada nas ideias excntricas de uma velha, nunca seria digna de elogios.
	Qualquer homem que no conseguisse analisar seus sentimentos sem a interferncia de uma tia Hermione, no seria um verdadeiro homem  Erin concordou.
	Exatamente. E se voc fosse idiota ou vaidosa o suficiente para acreditar numa histria dessas, no seria a mulher que procuro, afinal.
	Que tipo de mulher voc procura? Fale, Slater.
	Talvez seja mais fcil descrever os tipos que no quero. No me interesso por uma mulher trofeu, que funcione apenas como decorativa...
	Obrigada. Pensei mesmo que voc pensasse assim.
	No quero com isso dizer que voc no seja decorativa. Digo que beleza somente no  suficiente. No quero tampouco uma mulher que pense apenas em si e deseje que eu a distraia constantemente.
	Como Cecile.  Erin no conseguiu se conter.
	E vrias outras  Slater concordou.  As mulheres com quem tenho convivido no so do tipo que procuro para parceira.
	Quem sabe esteja procurando no lugar errado.
	Por incrvel que parea, essa ideia me ocorreu  Slater disse com voz seca.   a principal razo pela qual estamos tendo esta conversa agora, porque quando olhei ao redor, vi... voc.
	E o que me fez fazer parte de sua pequena lista?
	As qualidades que me atraram,  o que quer dizer? Sua solidez, sensatez, esprito prtico.  Slater tomou um gole do conhaque.
	Muito lisonjeiro para mim.
	Na verdade, quero que seja. Voc preferiria ouvir um poema bobo sobre seus lindos olhos?
	Claro que no.
	Pensei que no. O trabalho de uma esposa do membro de uma corporao no  muito diferente do que vem fazendo agora; e sabe disso, no? Por isso tenho certeza de que  a pessoa certa para essa posio.
	Ento, o que voc est realmente propondo  um casamento de negcios. Quer uma secretria com um emprego vitalcio, ou de contrato a longo prazo. E isso?
	E com outras vantagens mais, naturalmente.
Onde estariam as vantagens s quais Slater se referia?
	Por exemplo  ele prosseguiu , haver muitas viagens.
Erin no considerava as viagens de Slater um benefcio.
Ele, de fato, viajara o mundo todo, mas vira muito pouco alm dos aeroportos e escritrios de firmas.
	E um estilo de vida longe de ser modesto  ele disse ainda.  Muita liberdade para voc fazer o que deseja. Naturalmente no ter de dedicar todas as horas de sua vida a meus projetos. Teria um guarda-roupa mais variado do que o que tem agora. E uma substancial mesada.
	De fato, me pagar mais pelo mesmo trabalho que estou fazendo agora.
	Sem dvida, sim.
	E por qu? Para nunca mais ter de se preocupar com anfitris, por ocasio de seus jantares?
	Em boa parte, sim.
	E livrar-se das Ceciles do mundo?
	E tambm porque acho que eu e voc combinamos, Erin. Trabalhamos bem juntos.
	Isso  um benefcio em seu ponto de vista? Ter uma secretria que no pode pedir demisso?
	E para voc, a segurana de saber que nunca mais vai ter de se preocupar com o pagamento a receber no fim do ms. Ou com o pagamento de qualquer dvida sua.
Como seria bom continuar sentada ali perto do fogo, conversando apenas, Erin admitiu. Mas Slater lhe fizera uma pergunta, e ela teria de respond-la.
	Olhe, estou muito lisonjeada com seu pedido. Mas sinto muito...
	No seja precipitada na resposta, Erin.
	Tudo bem, vou ser franca. Minha resposta  "no". No leve isso para o lado pessoal, pois no  voc que estou recusando.  que, mais do que um casamento de convenincia, desejo constituir famlia. Algum dia, claro, no agora. Portanto entenda que, honestamente, no posso...
	Eu tambm quero constituir famlia  ele disse.
Slater ficou silencioso por tanto tempo que Erin preocupou-se. Teria ela sido rude demais?
	Eu gostaria muito de ter uma famlia  ele repetiu.  Mas, como voc, no estou com pressa.
	Vamos ento deixar nossa deciso para mais tarde?
Comeava a chover.
Como era triste Slater acreditar, pensou Erin, que estava lhe oferecendo o melhor que um casamento poderia proporcionar! E como seria duplamente triste se, depois de casados, aparecesse na vida dele a mulher que realmente amava. Com o senso de honra que possua, ele jamais romperia com seu compromisso anterior.
	Obrigada por tudo  disse Erin.  E estou realmente muito honrada. Mas...  Ela no conseguiu repetir as mesmas palavras.
	Mas sua resposta ainda  "no'?
	E. E oua tambm as palavras de seu interior, senhor.
	Voc no pode acabar com esse "senhor", Erin?
	Vou tentar.
Pelo modo como os olhos de Slater escureceram, Erin percebeu que atingira sua meta. No que esperasse que ele admitisse isso abertamente, claro.
	Algum dia  ela explicou  uma mulher pela qual voc na verdade se interessar, aparecer em sua vida e, quando sentir a magia de amar algum, saber a diferena.
	Essa magia do amor voc j experimentou no passado, vejo com clareza. Ou est experimentando agora, no presente?
Erin hesitou. Quando exatamente eu teria tempo?, ela quis perguntar, mas achou que ele quisera apenas mudar de assunto, entrando em outro campo para justificar o fato de ela no o haver aceito.
	Acredite-me  Erin insistiu , sei o que estou falando.
Slater sacudiu a cabea.
	Penso que isso apenas significa que voc  muito ingnua. Na minha experincia de vida, pude ver que essa magia do amor havia sido grandemente superestimada quando apareceram os relacionamentos afetivos, bastante interessantes. Em geral, a tal magia transformava-se em melodrama.
Slater parecia muito cansado.
Erin colocou seu clice de conhaque, pela metade, em cima da mesa e levantou-se.
	Nem todas as mulheres so como Cecile  ela disse.  E, quando voc encontrar uma e descobrir que eu estava absolutamente correta sobre a magia do amor, mande-me um carto de agradecimento. Ok?

CAPTULO III

Erin insistiu mais uma vez em tomar um txi, mas Slater interrompeu-a bruscamente dizendo-lhe que no fosse ridcula.
	A esta hora da noite no vai ser fcil. Se eu a levar, voc chegar em casa bem antes, e eu tambm.
Ambos dirigiram-se ao elevador.
	Eu apenas pensei...  ela comeou a falar.
Slater apertou o boto para o nvel da garagem.
	Se voc est preocupada com meu comportamento, esquea  disse ele.  Somente um idiota completo acreditaria que beij-la agora a faria mudar de ideia.
Erin sentiu que corava. Slater se enganava. No era questo do comportamento dele o que a preocupava, mas o trabalho que iria lhe dar. Slater jamais usaria de coero para com uma mulher que no o quisesse, pois haveria dzias de outras que o aceitariam com prazer.
No, no estava com medo dele. Receava, isso sim, que a conversa daquela noite mudasse tudo, a confortvel atmosfera do escritrio, o relacionamento agradvel entre os dois, a troca fcil de ideias. Se ela tivesse de prestar ateno a tudo o qu falasse por medo de como seria interpretada cada palavra...
	No poderamos passar uma esponja no que foi dito, no que acabou de acontecer?  ela perguntou.
	Acho melhor no tentar.  Slater conduziu-a para um conversvel vermelho, num canto da garagem.  Mas pode ter certeza de que eu no trarei o assunto de volta. Fiz minha pergunta, e obtive a resposta. No sou to idiota a ponto de pensar que, insistindo no mesmo assunto, teria uma resposta diferente. Voc foi bem clara.
	Bom  disse Erin.  Por gostar de trabalhar com voc, no gostaria que houvesse problemas.  Aliviada, ela acomodou-se no carro.   novo, no?
	O carro? .
	Nunca imaginei voc num tipo de carro conversvel.
Assim que fez a pergunta, Erin arrependeu-se. Dera a impresso de que tentava descobrir coisas acerca da vida dele, quando nunca o tratara com mais intimidade do que trataria um chefe qualquer.
Mas Slater respondeu com muita sinceridade:
	Considere isso crise da meia-idade.
	Comprar um carro esporte? Mas voc ainda no  bastante velho para ter atingido a meia-idade. Tem ainda uns dez anos pela frente.
	Sempre fui precoce. Pergunte a minha tia Hermione.
Erin riu muito. Ela gostaria que Slater tivesse se dado ao trabalho de baixar a capota. Embora a noite fosse fresca, havia algo convidativo na ideia de uma brisa remexendo em seus cabelos e refrescando o crebro para afastar os pensamentos complicados da ltima hora, deixando apenas o prazer.
Quando o carro parou em frente  porta da casa, Erin notou que a luz da sala estava acesa. Aquela hora sua me, em geral, j cochilara no sof e fora  cama, apagando a luz. Nunca esperava por Erin; tratava-se do pacto que fizeram havia dois anos, quando Angela Reynolds fora morar na casa da filha.
Talvez a me tivesse visitas, Erin admitiu. Mas no viu carros conhecidos pela redondeza. Angela no sara muito com homens depois do divrcio, mas havia uns dois que a procuravam; alis, mais interessados nela do que Angela neles. Erin comparava-os a Dax, pela atitude.
	Deixe-me no porto, por favor  disse.
E, como se no tivesse ouvido, Slater estacionou bem perto da casa e desceu para abrir-lhe a porta do carro.
	Voc no precisa...
	Economize seu flego, Erin, porque vou lev-la at a porta de casa, queira voc ou no.
Erin viu que no adiantava teimar.
	Tudo bem, senhor  disse, e desceu atrs dele.
Depois de trabalharem juntos por um ano, Erin pensou, Slater no precisava falar muito para ser obedecido.
Ele no a tocou, nem mesmo segurou-a pelo brao. No entanto, Erin prendia a respirao enquanto punha a chave na fechadura. Tentaria seu chefe tirar vantagem da situao?, pensava ela, apesar da promessa feita antes.
Somente um idiota acreditaria que beij-la agora a faria mudar de ideia, Slater dissera. Contudo, o que faria se ele tentasse?
De costas para Slater, enquanto lidava com a chave, Erin sentia o calor do corpo dele, bem junto ao seu. Na verdade, quase colado. Deu um passo  frente quando a porta se abriu e entrou.
	At amanh  disse Slater. E um segundo mais tarde desaparecia na escurido da noite.
Por que tive tanto medo?, Erin dizia a si mesma. Algum j viu Slater Livingstone no cumprir com sua palavra?
As luzes da sala continuavam acesas e a televiso ligada. No longo sof, Angela Reynolds sentava-se com o controle remoto na mo.
	Algum estava com voc, Erin?  ela perguntou.
	O sr. Livingstone me trouxe at aqui.
	Por que no o convidou para entrar? Gostaria tanto de ter chance de conhec-lo! Agora, seria perfeito.
	A esta hora?
	Que horas so?  Angela olhou para o relgio.  Pelo adiantado da hora, a festa deve ter sido um sucesso.
	Sem dvida, foi.  Erin teve vontade de se deitar ao lado da me, no sof, para lhe contar o que acontecera. Porm ela mesma j cuidara do caso. O que poderia Angela acrescentar?  Pensei que voc estivesse deitada, mame.
	Acho que cochilei aqui na sala. Tive muita dor de cabea hoje, e indisposio de estmago. Acho que comi alguma coisa que me fez mal.  Ela bocejou e levantou-se.
Erin disse boa-noite e retirou-se para o prprio quarto. Contudo, no conseguia se esquecer dos acontecimentos da noite. Via o rosto de Slater em sua frente com a expresso que tivera ao pedi-la em casamento.
No entanto, tinha certeza de que ela agira certo. Que mais poderia ter feito para conservar o emprego que amava e a amizade do chefe?
Poderia ter dito "sim".
O sussurro no fundo de sua mente foi como um choque eltrico. E ela comeou a rir  bobagem da ideia. Casar-se com Slater Livingstone? Estava cansada demais para raciocinar, esse era o problema, e sua mente lhe pregava truques.
Dera a Slater a nica resposta que pudera. A nica resposta sensata, para o bem de ambos.
No dera?
Erin dormiu demais na manh seguinte, o que a deixou feliz por ter preparado os documentos na vspera. E algo lhe dizia que, se tivesse dito "sim" em vez de "no", e se o documento no estivesse em cima da escrivaninha s nove horas, e pronto, Slater no seria nada compreensivo.
Erin j fazia mentalmente a lista do que precisava fazer no dia, quando chegou ao escritrio. E deparou com Dax Porter na sala de Sarah.
	Com licena  disse Erin, curiosa em saber o que fazia ele l. No poderia ter sido encorajado por Sarah. Ou teria sido?
Um olhar para Sarah acabou com a suspeita. A secretria estava imperturbada, sem trao de culpa.
	Dax trouxe a correspondncia para voc  disse ela, com ironia no olhar.
Como se no houvesse entregador do correio no prdio!
	Muita amabilidade sua  murmurou Erin.
	Talvez voc queira que eu a ajude a selecionar  Dax ofereceu-se.  Umas cartas so mais interessantes do que outras...
Erin interrompeu-o, dizendo:
	Farei isso quando tiver tempo. Obrigada pela amabilidade.
	Oh, voc est chegando tarde hoje. A festa de Livingstone deve ter sido um sucesso.
Tratava-se de algo que no merecia comentrio, nem resposta.
	Sarah, se os contratos estiverem prontos, leve-os  minha sala.
	Esto aqui.  Sarah entregou-os a Erin.  E o chefe deseja v-la imediatamente.
Dax retirou-se.
	Esse homem a perturba?  Erin perguntou a Sarah.
	Ele  inofensivo. Apenas flerta comigo quando quer uma chance de falar com voc.
	Mas por que o sr. Livingstone precisa de mim? Algo errado com o contrato de Brannagan?
	Acho que no. Hoje ele se parece com um rptil gigantesco, um iguanodonte.
	Como  esse animal?  Erin lhe perguntou.
	Tem aspecto feroz mas  inofensivo. Ns, que temos filhos de oito anos, aprendemos tudo sobre feras, como se fosse em autodefesa  Sarah explicou.
	No vou me esquecer disso, para o caso de um dia eu ter um filho.
As palavras de Slater da noite passada soaram aos ouvidos de Erin: Quero muito ter uma famlia.
E at quando vou conservar na memria o retrospecto daquela conversa? Erin se perguntava. Esquea, Reynolds. Acabou!
Erin bateu na porta do escritrio de Slater e entrou.
A correspondncia estava em cima da mesa e o jornal dobrado num canto. Slater olhava pela janela, apreciando a vista de St. Louis at o rio Mississippi. Mas virou-se para Erin quando a viu entrar.
	Bom dia, Erin  disse.
O timbre profundo da voz dele era o mesmo de sempre; o cumprimento, frio de um homem de negcios; o sorriso, perfeitamente normal. Tudo o que ela teria de fazer era retribuir o sorriso e comear a trabalhar.
Porm havia uma diferena. Quando o encarou, enxergou no apenas o chefe que ela respeitava, como tambm o homem solitrio que lhe pedira que compartilhasse de sua vida.
Erin sugerira na vspera que ignorassem o episdio. Como fora ingnua ao imaginar que seria possvel! Mas Slater soubera disso. Seria melhor no tentar, ele dissera. E tivera razo; as coisas haviam mudado, e no existia possibilidade de faz-las voltar ao que eram.
	Quer falar comigo, senhor?  ela perguntou.
	Voc esqueceu-se de uma coisa em meu apartamento ontem  noite.
Erin franziu a testa, tentando se recordar do que deixara por l. Uma escova de cabelos? Um batom?
Slater pegou, na mesa perto da janela, um vaso de cristal contendo uma rosa vermelha.
	Jessup achou que isso era importante para voc, A rosa de Dax. Que pena no ter sido usada na festa. Mas era vermelha demais para se misturar com as flores brancas do centro da mesa. Por isso fora posta de lado enquanto ela arrumava as flores de Tnio. Esquecera-se completamente da pobre rosa, mas Jessup guardara-a com cuidado.
Erin cheirou a flor. Era linda, e no fora culpa da rosa o fato de ter sido dada por Dax. Mas, de qualquer forma, a flor serviu para cham-la de volta  realidade. Afinal, tinha sua prpria vida e no podia se fixar no que quer que estivesse errado na de Slater...
O que estaria ele pensando agora? Quem sabe se precipitara pedindo-a em casamento por causa da conduta de Cecile, e agora considerava-se feliz porque ela dissera "no".
	Obrigada por ter trazido a rosa, senhor. Devolverei o vaso, naturalmente.
	No h pressa. Jessup se sentir feliz em saber como ficou contente por ter a flor de volta. Se eu tivesse sabido que voc tinha algum em sua vida, no a teria incomodado com aquela bobagem de ontem  noite.
Erin abriu a boca para falar que a rosa no significava nada para ela, que no havia ningum especial em sua vida. Mas de repente achou que ele poderia interpretar que preferia no ter ningum a t-lo. Confusa, fitou-o e mordeu o lbio. E voc achou que poderia fingir que aquilo nunca acontecera!, sua voz interior sussurrou.
	No h necessidade de explicar  disse Slater.  Eu entendo. Agora, vamos trabalhar antes que Bob Brannagan chegue?
Quando Erin saiu da sala do chefe uma hora mais tarde, carregando o vaso de cristal e uma lista de coisas a fazer, Sarah olhou para a rosa com no disfarado interesse. Mas no fez comentrios, apenas apresentou-lhe uma folha de papel.
	Algo importante?  Erin perguntou.
	Depende de seu ponto de vista. A secretria do senador telefonou cancelando a visita de quinta-feira porque haver uma votao importante, alguma coisa a ver com o Pentgono. Sabe de algum que queira quatro entradas para o bale?  Sarah continuou com a notcia, imperturbvel.  Porque eu tinha posto minhas mos nos bilhetes dez minutos antes de ela telefonar.
	Vou perguntar ao sr. Livingstone se ele quer convidar algum mais  disse Erin.  Se no quiser, poremos um aviso no quadro para que os empregados tomem conhecimento. A menos que voc queira levar seu filho.
	Ao bale? Somente se se passar na era pr-histrica.
	Acho que no.
	Imagine que lindo espetculo seria o de dinossauros com saiotes de bale!  Sarah sacudiu os ombros de tanto rir.  Mais uma coisa, a sra. Brannagan telefonou para lhe agradecer pela festa de ontem  noite. No para agradecer ao sr. Livingstone ou a Cecile. Mas a voc.
	Eu e ela conversamos bastante  disse Erin.  E, por falar nisso, no transfira para o sr. Livingstone as ligaes de Cecile sem lhe perguntar se ele deseja falar com ela.
Sarah mostrou-se intrigada.
	Alguma outra mulher vai ficar com o homem? timo. Eu j estava pensando que iramos ter de aguent-la perma nentemente. Suponho que voc no v me contar o que houve.
	Por que acha que eu sei?  Erin ergueu a sobrancelha.
	Porque voc sempre sabe tudo.  como se tivesse um radar no referente s amigas dele. Eu me pergunto quem ser a prxima. Est na hora de alguma ruiva, no acha? J reparou como ele quase nunca d preferncia a uma morena? Ser que  por que tem a ns aqui o tempo todo?
	Sem dvida  disse Erin. Ela se perguntava o que diria Sarah se soubesse da conversa deles na vspera. E teve vontade de saber o que Sarah queria dizer por radar. No eram todas as secretrias que se interessavam em saber o que se passava com seus chefes?
Na hora do almoo, Erin deixou em cima da escrivaninha uma pasta aberta com o trabalho que j comeara a fazer, e disse a Sarah que iria descer  lanchonete, que ficava no mesmo prdio.
	Quer pagar a conta a Tnio para eu no precisar descer?  Sarah pediu.  Quantas flores voc comprou?
	Mais do que estamos pagando  respondeu Erin depois de ter olhado para a fatura.
Tnio servia um fregus e Erin esperou pacientemente at ele terminar.
	Sobre a conta  ela disse , quero ter uma conversa com voc.
	Pode ser numa outra hora, senhorita?  E passou por perto dela para servir outro fregus.
Intrigada, ela foi  lanchonete, pegou um prato de salada no bufe e procurou por um lugar na sala apinhada. Por isso, em geral, era necessrio que se ocupassem mesas em comum.
E o nico lugar vazio era onde Dax Porter sentava-se, junto com duas outras mulheres do departamento de propaganda da companhia.
Com o prato na mo, era tarde demais para ela fingir que no fora  lanchonete com a finalidade de almoar. Sentou-se ento ao lado de Dax.
	Voc parece cansada  sussurrou ele.  Sempre achei que as festas de Livingstone no podiam ser muito interessantes. S se fala sobre negcios, no  verdade? Qual foi o assunto de ontem?  Antes de Erin responder, Dax olhou para o saguo de entrada do prdio e perguntou:  Quem  aquele homem que est junto de Livingstone, saindo do elevador?
Erin olhou e deparou com seu chefe e Brannagan, ambos com ar sombrio. Estariam indo almoar com o contrato ainda por decidir?
Erin aproveitou a oportunidade e perguntou:
	Algum aqui gosta de bale? Temos algumas entradas para quinta-feira  noite.
	Homens musculosos em traje de bale?  Dax indagou.  No  programa de meu gosto. Mas, naturalmente, se voc for, Erin...
	Impossvel, estarei ocupada nessa noite.
	 a noite da visita do senador, no ? Acredito que esteja ocupada at o pescoo.
Um empregado da lanchonete aproximou-se de Erin, dizendo:
	Srta. Reynolds? Sua secretria deseja lhe falar imediatamente.
Erin levantou-se da mesa e desculpou-se com os companheiros.
	Quem  o chefe l em cima, afinal?  indagou Dax.   Sarah?
	s vezes  Erin respondeu. No quis explicar a ele que, se Sarah ousara interromper-lhe o almoo, devia haver problema bastante srio.
Assim que entrou no escritrio, adivinhou o que se passava. Sentada ao lado de Sarah, com uma revista aberta no colo, as pernas elegantemente cruzadas, estava a esposa de Brannagan.
Ela sorriu para Erin.
	Desculpe-me  disse , eu no sabia que voc havia ido almoar. Vim com Bob, como pode ver, na esperana de podermos terminar com a interessante conversa de ontem, quando aquela jovem mulher chegou e voc desapareceu. Mas no imaginei que eu estivesse interrompendo seu descanso.
	Sem problemas, sra. Brannagan. Quer vir a minha sala?
	Posso remediar minha interrupo convidando-a para almoar? Eu me sentiria muito melhor.
Erin pensou na lista de tarefas que tinha por fazer, mas sabia que nada era to importante para Slater no momento do que ganhar a boa vontade da sra. Brannagan. A nica coisa que a surpreendia era Slater ter se retirado do escritrio antes de deix-la adequadamente acompanhada.
	Fico encantada em aceitar o convite. Onde prefere ir?
	A est parte de meu problema. No conheo nada em St. Louis. Portanto, quero usar sua experincia no apenas para almoar como para fazer compras. Tambm adoraria ir ao topo do Arco e Bob detesta alturas, e no quero subir sozinha.
	Ento poderemos fazer isso depois do almoo  concordou Erin.
	Querida, o sr. Livingstone tem alguma ideia do quanto  feliz em t-la como secretria?
Quer se casar comigo?, ele dissera. Ns combinamos, voc e eu. Solidez. Sensatez. Esprito prtico. Para voc, a segurana de um trabalho para toda a vida. Tudo, Slater lhe dissera.
	Ele nunca me falou isso. Tampouco jamais ameaou me despedir.
Erin passou a maior parte da tarde com Francs Brannagan e voltou ao escritrio apenas quando Sarah desligou o computador. Olhou para a porta fechada da sala de Slater e perguntou:
Ele ainda est l?
Oh, sim. Acho que no irei para casa hoje, s se fugir.
Nesse instante a porta se abriu e Slater apareceu, abotoando o palet.
	Sarah, se Erin chegar antes de...  Slater fez uma pausa quando a viu.  Teve uma tarde agradvel?  perguntou a ela.
Erin abafou o desejo de explicar que no estivera se divertindo.
	Pela milsima vez fui at o topo do Arco. Mas, alm disso, o resto no passou da rotina. Acabarei com o mximo que puder da lista esta noite, senhor.
	Isso pode esperar. Voc est to cansada como todos ns.
	O contrato com Brannagan foi enfim assinado?  Erin perguntou.  Ela leu a resposta nos olhos de Slater.  Mas pensei que tudo j tinha sido decidido. O que houve?
	Brannagan no disse. Venha, levo voc para casa. Fica praticamente no meu caminho.
Quando o manobrista trouxe o carro, a capota estava levantada.
	Voc se importa, Erin? Est um pouco fresco.
	O ar fresco faria voc se sentir melhor. Deve estar ter rivelmente desapontado, trabalhou tanto nesse contrato!
	O estranho disso tudo  que no acredito que o contrato esteja morto. Garanto que Brannagan est to interessado quanto antes.  Ele olhou para Erin.  A sra. Brannagan no deixou escapar nada?
	No disse uma palavra sobre negcios, do marido ou do seu. As nicas coisas sobre as quais se interessou foram as compras, os passeios, e os relacionamentos.
	Parece-me que foi uma tarde muito interessante.  A voz de Slater era seca.  Que tipo de relacionamentos?
	Comigo, em especial. E havia tambm Cecile. A sra. Brannagan pareceu no simpatizar nada com Cecile, mas no parava de comentar sobre ela.
	Preciso me lembrar de lhe dar um aumento, Erin. Ok?
Recompensa por uma luta incrvel.
	Obrigada. Com esse aumento, poderei quase comprar nas lojas de que ela mais gostou. Comecei a pensar que a mulher era uma frustrada casamenteira. Sabe se os Brannagan tm um filho adulto?
	No sei. Quer que eu pergunte?
	Penso no ser necessrio. Se eu tiver passado no teste como nora dela, descobrirei isso logo.  Chegavam  casa de Erin.  Quer entrar e tomar um caf? Minha me deve estar em casa, e me perguntou por que no o convidei para entrar na outra noite,
	Obrigado  Slater agradeceu.  Mas tenho ainda algumas coisas a fazer hoje.
	Naturalmente. Mas lembro-me de voc ter falado que estaria quase no caminho de seu apartamento.
	Ok. Entrarei alguns minutos, apenas para dizer "al".
 E estacionou o carro no nico espao vago da quadra.
Erin abriu a porta e chamou a me pelo nome. Nada de resposta.
	Talvez ela tenha ficado no trabalho at mais tarde. Sinto muito.
	Numa outra ocasio. At amanh, Erin.
Ela entrou e comeou a desabotoar o palet, ajustando aos poucos a vista ao escuro. Quando chegou no sop das escadas, viu Angela Reynolds esparramada no tapete, como uma boneca jogada descuidadamente por uma criana. Erin arregalou os olhos e seu rosto adquiriu uma tonalidade cinzenta.
	Me?  A voz dela estava trmula.
Angela balbuciou qualquer coisa e ergueu a mo como para pression-la contra a testa. Porm estava fraca demais e a mo caiu no cho com um rudo surdo.
Erin correu  porta da frente.
	Slater!  Havia uma nota de histeria em sua voz.
Ele se encontrava j no meio da calada, mas precisou de apenas trs passos para voltar at ela.
	O que foi, Erin?
Erin no podia falar. Em vez disso, agarrou-lhe as mos e o fez entrar na casa, ao lugar onde a me se encontrava, justamente quando Angela comeava a lutar para respirar.

CAPTULO IV

A equipe da ambulncia era composta de gente jovem, de profissionais, e muito eficientes; apesar do fato de Erin no poder lhes dar quase informao nenhuma acerca do desmaio de Angela, em poucos minutos sua me estava preparada para ser transportada.
Ela correu para a porta, sem casaco, atrs da maca, pois queria descobrir que leis eram essas que proibiam qualquer pessoa, exceto o corpo mdico, de viajar com o paciente. E descobriu que essas leis eram inflexveis como granito.
Erin comeou por protestar, com voz trmula, palavras incoerentes, mas Slater a fez calar-se.
	Eu levo voc ao hospital depois  ele disse com firmeza, empurrando-a para dentro de casa. E um segundo mais tarde a ambulncia partia, apitando pela rua.
	Mas  minha me!  ela protestava.  Como ousam no me deixar ir junto com ela?
	Porque a ltima coisa de que necessitavam seria ter de cuidar de uma mulher histrica na ambulncia  Slater respondeu calmamente.
O comentrio, para Erin, foi como se ele tivesse jogado um copo de gua fria em seu rosto.
	Eu no faria nada disso  ela respondeu, indignada.
	No, porque no ter chance. Respire fundo, e depois que fecharmos a casa, eu a levarei em meu carro.
Erin pegou o casaco que deixara no cho onde cara, e declarou:
	Estou pronta para ir agora.
	Mas no poder ficar com ela j. No at iniciarem os exames. Portanto, vamos fechar todas as janelas, verificar se as torneiras no esto com gua escorrendo, ou voc ficar sentada no hospital sem nada a fazer alm de se preocupar com tudo aqui.
Erin no tinha argumentos lgicos para apresentar contra, por isso resolveu percorrer cmodo por cmodo, atrs de Slater. Quando encontraram uma chaleira no fogo, seca, sem gua de tanto ferver, e vermelha, com certeza l posta para preparar um ch, Erin mordeu o lbio e admitiu que estava longe de poder agir sensatamente.
Foi Slater quem fechou a porta da casa, pois as mos dela tremiam incontrolavelmente. E na sala de espera da emergncia ele providenciou uma xcara de caf, e segurou-a at ela recuperar a firmeza das mos.
Erin melhorou logo, e sentou-se. Pela primeira vez, desde a chegada da ambulncia, encarou Slater.
	Sinto muito  disse.
	Pelo qu?  ele perguntou-lhe, espantado.
	Por tudo. Por esta loucura toda.
	Tem desculpa para estar nervosa, Erin. Sabe disso.
	No, na verdade.  Ela sacudiu a cabea.  E o modo como arrastei-o para dentro de minha casa! Isso quando voc disse que tinha coisas a fazer. Coisas importantes, talvez...
	Nada to importante como o que est acontecendo.
	Mas se agora voc precisar ir, eu entendo, senhor.
	Alguns minutos atrs voc usou meu nome sem o senhor.
	Usei?  Erin mal podia se lembrar do que fizera alguns minutos atrs; apenas sabia que minutos atrs vira sua me deitada no cho, e seu nico pensamento fora que Slater saberia o que fazer.
	De qualquer maneira, obrigada por me trazer aqui. Mas no precisa ficar comigo agora  ela insistia.
	Est me mandando embora? Se quer ficar sozinha, Erin...
	No  ela protestou.  No, no estou mandando voc embora. Mas...
	Nesse caso, ficarei um pouco mais. Precisa avisar algum? Farei os telefonemas, se quiser.
	Voc algumas vezes na vida se deu ao trabalho de discar um telefone?  Erin riu muito.  Sarah no acreditaria, e ficar impressionada ao saber.
	Voc no tem irmos e irms?
	No, no tenho ningum.  Sim, ela era completarnente s. Quando havia decises a fazer, coisas que Angela no conseguia resolver por si mesma, era sempre Erin quem carregava o peso das responsabilidades.
	Mas no pense no pior  disse Slater, como se lesse a mente dela.  Espere at obter informaes seguras. Nesse meio tempo, no h razo para ficar exausta atormentando-se sobre o desconhecido. Guarde suas foras para quando souber algo.
	 mais fcil falar do que fazer  Erin sussurrou, e logo depois ficou envergonhada por censur-lo.  Desculpe. Sei que voc est tentando me ajudar.
	Concluo, uma vez que Angela mora com voc, que seu pai tenha morrido. Estou certo?
	No. Longe disso, realmente. Mas no h necessidade de telefonar para ele.
	Esto divorciados?
	H dois anos j.  Erin suspirou.  Portanto, no  necessrio se fazer nada com respeito a meu pai.
	Mas sua me poderia quer-lo...
	No.  A voz de Erin era firme.  Acredite-me, se ela acordasse e visse Jack Reynolds junto  cama, entraria em crise e a a coisa se tornaria ainda mais complicada. Mas... como pude no ter adivinhado que alguma coisa ia mal?  prosseguia ela. 
 Minha me me contou ontem  noite que tivera forte dor de cabea e enjoo de estmago. Se eu tivesse tido ideia...
	Claro que voc no poderia adivinhar. Alm disso, Erin, ela  adulta, capaz de cuidar de si, e com certeza no pensou que fosse alguma coisa sria.
	 que ela poderia ter ficado deitada ali no cho durante horas, at eu voltar para casa, se tudo tivesse acontecido ontem, quando cheguei to tarde.
	No seja pessimista, Erin. Est ficando louca com o que poderia ter se passado. E no h razo para tal.
	Mesmo hoje, ela deve ter ficado naquele cho frio durante horas, pois no tenho ideia de quando saiu do trabalho.
	Acredito que no tenha ficado no cho mais do que alguns minutos. Lembra-se da chaleira? Se tivesse permanecido no  fogo por mais do que alguns minutos, estaria em condies bastante piores.
	Oh, tem razo. Havia me esquecido da chaleira. Aquilo poderia ter iniciado um incndio.
	Mas no iniciou. E se voc no parar com essa choradeira, vou sacudi-la.
	Slater...
	O que?
Erin esqueceu-se do que quisera dizer. Talvez desejara apenas pronunciar o nome dele.
	Nada  disse.  Obrigada apenas.
O dois ficaram sentados em silncio enquanto ambulncias vinham, pessoas entravam e saam, e os minutos corriam inexoravelmente.
	H alguma outra pessoa que voc gostaria que estivesse aqui, Erin? O homem de quem gosta, por exemplo?
	Que homem?
	O que lhe deu o colar que tem no pescoo.
Erin no se dera conta de que tocava o colar constantemente.
	Oh, este? Na verdade...
	E a rosa.
Dax?
	No, obrigada. No agora, de forma alguma.
Slater ficou to atnito que derrubou algumas gotas de caf na roupa. Limpou-a com o leno.
	Por qu? Porque no quer incomod-lo?
Erin fitou-o com surpresa. Mas no podia explicar o que era Dax para ela. Depois daquela manh fatdica, fizera Slater acreditar que havia um homem especial em sua vida... E aquilo, pensou, estaua ficando incrivelmente complicado.
	Estou incomodando voc, Slater? Sinto muito, de verdade, sinto. Mas no precisa ficar s porque eu disse que no gosto da ideia de esperar sozinha.
	Que acha de tomarmos um caf decente?
	Acho que no h outro aqui alm deste de mquina.
	No, mas algumas quadras adiante h uma famosa lanchonete.
	No quero sair do hospital agora. E teremos de ir l, pois eles no entregam fora do local.
Slater sorriu.
	Quer fazer uma aposta?  Ele jogou o copo de papel vazio no lixo, e foi para o telefone.
Erin brincava com um biscoito de amndoas, bebendo o melhor caf que j experimentara, quando uma enfermeira da emergncia apareceu na sala e chamou-a.
Erin esperara havia muito por aquele instante; anos, lhe parecera, sentada na velha cadeira de'plstico. Contudo, agora que o momento chegara, estava apavorada. Enquanto no vinha ningum lhe dar notcias, era sinal de que os mdicos ainda lutavam para salvar a vida de sua me. Mas, se a funcionria viera para lhe dar o diagnstico, ou dizer-lhe que Angela se fora, quereria isso dizer que a batalha estava terminada?
Os dedos de Erin estavam to adormecidos que ela mal podia segurar a xcara. Slater, ali ao lado, ajudou-a a se levantar.
Outra enfermeira apareceu e disse:
	Sua me foi removida para a UTI, srta. Reynolds. Vou lhe mostrar o caminho.
O alvio de Erin ao constatar que as notcias no haviam sido as piores, deu lugar a um medo diferente.
	Slater  ela sussurrou , voc vem comigo?
Enquanto os dois atravessavam a sala na direo da UTI, vrias pessoas que continuaram l serviram-se do resto que fora encomendado por Slater; do caf e dos biscoitos.
	Obrigado, senhor!  um homem idoso agradeceu.  Estes biscoitos so excelentes.
Houve um coro de agradecimentos. Todos tinham uma xcara de caf nas mos.
	O senhor encomendou caf e biscoitos para um exrcito?
	S porque quando telefonei o gerente disse que nunca mandava menos do que o correspondente a cem dlares  explicou Slater.
	Ele foi idiota se pensou que isso desencorajaria voc  comentou Erin.
A enfermeira conduziu Slater e Erin ao longo de um corredor at um saguo, e explicou-lhes o resto do caminho. Assim que ela ficou fora de vista, Erin deu uma gargalhada e comentou:
	Pela expresso do rosto da moa quando o fitava, Slater, tinha certeza de que voc iria se submeter a algum exame.
Enfim, os dois ficaram sentados em outra sala agora, esperando por notcias.
	Voc deve saber muito bem como  isto, no?  continuou Erin, mas Slater no respondeu, e a curiosidade dela aumentou. Sabia tanto sobre muitos Livingstone mortos, e to pouco sobre aquele...  Seus pais...
Minha me morreu em acidente  Slater enfim disse.  No teve tempo de se despedir de ningum. Meu pai... bem, no viveu muito depois disso, ao menos do ponto de vista dele. Mas tudo  histria antiga, excetuando-se o fato de que sei como a pessoa se sente quando v a me ou o pai em perigo. E eu tambm no tenho irmos com quem dividir minha dor.
	No me admiro por tia Hermione estar tentando casar voc  Erin murmurou.  Se  o nico broto que sobrou em seu galho na rvore de famlia... Suponho que ela espere ainda ver meia dzia de pequenos Livingstone.
	Acho que posso com segurana no dar importncia ao que tia Hermione deseja.  Aps uma pausa, ele comentou:
 Falta muito tempo para amanhecer, Erin. Tente descansar.
Ela procurou encontrar posio mais confortvel no sof.
	Esquea tia Hermione, Slater. E voc, quantos filhos de seja ter?
	Oito, no mnimo. Por isso achei melhor ignorar o que minha tia deseja.
	Oito?!  Erin exclamou.
	Exagerei, pois quis apenas chamar sua ateno. Durma, Erin. Agora  uma ordem.  Ele ps um brao em volta dela e a trouxe para bem junto a si, fazendo-a apoiar-se no firme suporte de seu corpo.
Ela estava cansada demais, ou talvez tensa demais, pois dentro de segundos achou que no havia nada de sensual no gesto de Slater. Ele podia ser um irmo mais velho oferecendo-lhe o ombro para apoio.
Mas ento...
O aroma da loo ps-barba lhe era familiar, porm nunca o sentira daquela maneira, to gostoso que parecia um suave perfume misturado ao quente conforto do corpo dele e  fora do brao que a envolvia, criando uma agradvel sensao que a aquecia como um cobertor.
Em circunstncias diferentes, ela pensou, poderia ser muito agradvel ficar assim, bem junto de Slater, impossvel de saber se o calor era dele ou dela. Se virasse um pouco a cabea, seus lbios, acidentalmente, claro, roariam o queixo de Slater. E, se ele tambm virasse a cabea, e a abaixasse um pouco, como para um beijo...
 em seu chefe que voc est pensando, Reynolds, Erin tentava se lembrar. Mas Slater no podia culp-la, pois fora ele quem lhe fizera a louca proposta... No fora? E como seriam os beijos dele?
Competentes, claro, como tudo o mais em Slater. Eficientes, sem necessidade de muito tempo ou esforo... E assim, ouvindo as suaves batidas do corao dele, Erin adormeceu.
Os primeiros raios de sol a acordaram. Apesar de ser ainda muito cedo, o dia era promissor, e por instantes ela exultou com o prazer da claridade penetrando pelas janelas. A notou como estava dolorida. E, ainda com a cabea apoiada no ombro de Slater, lembrou-se de tudo.
	Eu no devia ter dormido tanto  comentou.
	Se houvesse necessidade de sua presena, eu a teria acordado.
Erin examinou-o. Nunca o vira com a barba por fazer. E ficou surpreendida, pois Slater no parecia mal cuidado naquele estado, como muitos homens. Por qualquer motivo, o sombreado da barba fazia seus olhos maiores e mais escuros, o queixo mais forte. Quanto s roupas, a coisa era diferente; via-se que dormira vestido. Exceto que no dormira, mas sentara-se e a segurara a noite inteira... e no houvera nada de romntico acerca do modo como ele a apoiara. Absolutamente nada.
	Voc deve estar exausto  observou Erin.  Graas a sua ajuda, dormi o suficiente para readquirir minha energia. Vou ficar boa. E, por favor, no me faa sentir mais culpada do que j me sinto, Slater.
Ele devia estar mesmo muito cansado, porque no protestou. Encarou-a e disse:
	Se tem certeza de que est bem, h algumas coisas no escritrio...
	O escritrio!  Erin exclamou.  Eu tinha me esquecido da lista que voc me deu ontem...
	No pense nisso. Voc tem coisas mais importantes a fazer agora.
	Isso me faz lembrar, contudo, de uma coisa. Uns dois funcionrios da seo de propaganda conversavam no restaurante... ainda ontem? Perdi noo do tempo. Enfim, eles discutiam sobre a campanha que teremos em breve. Nada em segredo, nem em voz baixa. Tem certeza de que no quer que eu previna a todos sobre a necessidade de no se esquecerem de que esses assuntos so confidenciais? Eu poderia...
	No, voc no poderia, pelo menos no agora. Conversaremos sobre o assunto mais tarde, pois trata-se de uma observao muito interessante.  Slater levantou-se, espreguiou-se para relaxar os msculos.  Vai me informar como vo indo as coisas aqui, Erin?
	Naturalmente.
Erin acompanhou-o  sada, dizendo a si mesma que tambm precisava de uma boa esticada de msculos. Mas no instante em que Slater a deixou, ela ficou no corredor sentindo-se muito pequena, insignificante, e sozinha.
Quando Erin saiu do hospital algumas horas mais tarde, o sol no estava mais to lindo. Machucava-lhe a vista. O calor sobre sua pele devia ser reconfortante, mas parecia zombar dela por causa do contraste com o frio dentro de seu corao.
As enfermeiras sugeriram que ela fosse para casa, tomasse um bom banho, e se deitasse um pouco. Havia outros exames a fazer na paciente, e o mais importante para Angela agora era calma e quietude, por isso Erin no poderia passar muitas horas com a me.
O txi j estava a meio do caminho de sua casa quando ela mudou de ideia. Pediu ao motorista que a levasse ao escritrio.
O saguo do prdio estava quase vazio, a lanchonete comeava a funcionar para o almoo. As butiques, embora abertas, tinham poucos compradores. Na floricultura, Tnio rearranjava os cravos, separando-os em vrios vasos para que no ficassem amassados. O perfume das flores fez Erin espirrar.
A porta do elevador se abriu naquele instante, e Dax, de pasta na mo, saiu. Erin voltou para se esconder na loja, na esperana de que ele no a visse. Mas Dax pareceu ser conduzido a ela como um im, e encontraram-se no meio do saguo.
	O que houve, Erin? Voc est com aspecto pior que o do chefe esta manh.  Ele examinou-a da cabea aos ps.  Outra festa? Agora uma para abafar todas as outras?
	Quase.
	Como?  Dax percebeu pela expresso de Erin que ela no falava a verdade.
	No tenho tempo para lhe explicar, Dax.
	Francamente, se voc no quiser ser o motivo para comentrios l em cima,  melhor ir trocar de roupa. Vir trabalhar com o mesmo vestido que usava ontem...
	Passei a noite no hospital com minha me. Ela tem um tumor, e vai ser operada amanh.
	No! Que notcia, amiga! Cncer  uma desgraa. Desejo, para seu bem, que a doena no se arraste demais, que ela morra logo.  terrivelmente depressivo, para qualquer pessoa, no poder fazer planos para o futuro. Adeus. Espero encontr-la por aqui mais tarde.
Se Erin tivesse recebido uma notcia triste, no poderia ter ficado mais chocada como aconteceu com a indiferena de Dax. Nem uma palavra de carinho. Contudo, o que poderia esperar de Dax?
Alguns passos adiante, Tnio suspirou.
	Lamento o que houve com sua me, srta. Reynolds. Mas no preste ateno quele canalha.
	A nica coisa que me surpreendeu foi a falta de classe dele.  Erin deu alguns passos na direo do elevador.
	Sabe  disse Tnio , sobre aquela rosa vermelha que ele deu a voc...
	O que houve com a rosa?
	Ele ainda no pagou.
	Mas eu vi quando Dax tirou...
	Oh, ele puxou a carteira. Mas, assim que voc se retirou, ele guardou o dinheiro e me disse que pusesse na conta do sr. Livingstone, pois ele nunca notaria nada. No fiz isso, claro. Eu no ia lhe contar coisa alguma. Mas, depois do que ele disse sobre sua me, achei que a faria se sentir melhor sabendo como ele . Porm, mesmo assim, acho que eu no devia ter falado.
	Obrigada, Tnio.  Erin sorriu, tirando a carteira da bolsa.  Qual  o preo da rosa?
	No lhe disse o que ele fez para qu voc pagasse  ele protestou.  S quero que saiba que Dax no  l essas coisas como se faz passar. No quero v-la ferida.
A nica coisa assustadora sobre isso, Erin refletia, era que Tnio pensasse que ela acreditava nas tapeaes de Dax...
A porta do escritrio de Slater estava fechada, e Sarah catalogava documentos na sala anexa quando Erin entrou. Sarah correu ao encontro dela.
	O sr. Livingstone me contou  disse.  O que encontraram aps o exame? Como est ela? E voc, como est? Oh, Erin!
	Slater est a?  Erin perguntou. Seus lbios estavam retesados, secos. Os olhos, vermelhos.
	Est, mas com o sr. Brannagan. Porm tenho certeza de que ele no se importar...
	No, no o interrompa.  Erin acreditou ter visto um qu de curiosidade nos olhos de Sarah, e abruptamente se deu conta do que causara aquilo. A secretria no estava acostumada a ouvir o chefe ser mencionado pelo primeiro nome.  O contrato com Brannagan  muito importante. Mas, quando ele estiver livre, pea-lhe que v  minha sala, ok?  De sbito, Erin sentiu que no poderia dizer, ou ouvir, qualquer outra palavra, como se cada uma delas esfregasse contra sua pele, ferindo-a. Sem esperar por uma resposta, ela deu meia volta e foi a seu quieto local, e fechou a porta.
A lista e a pasta que deixara aberta sobre a escrivaninha na vspera, continuavam l. Como tudo mudara em to pouco tempo! A sala no mais lhe parecia familiar; era como se no a tivesse visto havia meses.
Deparou com a rosa que Dax roubara de Tnio, agora j um pouco fenecida, as ptalas cadas e escuras nas bordas, como se estivessem vergadas pela vergonha. No era culpa da rosa o fato de Dax ser um cretino, ela disse a si mesma. Mas suas mos pareceram se mover de vontade prpria, uma delas segurando a haste da flor enquanto a outra puxava uma sedosa ptala quase solta, jogando-a dentro do cesto de lixo. Depois outra, e outra...
Enfim, ela admitiu, sentir raiva era bom em seu caso, lhe dava energia. Era muito melhor agora ficar zangada do que pensar sobre a me, do que se envolver numa situao em que no havia nada que pudesse fazer, a no ser sofrer.
Quando todo o caule da flor ficou limpo, ela tirou-o do vaso e dobrou-o nas mos. Mas em vez de isso lhe dar satisfao, um espinho escondido picou-lhe o polegar. A haste caa no cesto enquanto Erin punha o dedo ferido na boca.
Sobrara apenas o vaso. Ela pegou-o quase automaticamente, com a inteno de fazer o mesmo com ele, de reduzi-lo a pedaos, de esmag-lo. Mas a suave voz de sua conscincia a segurou. O vaso no tinha nada a ver com Dax, a voz a fez lembrar. Fora Slater quem providenciara o vaso, igualmente to lindo, tal qual sua maneira de agir,'como a rosa. Mas havia uma diferena. No como a rosa, dada descuidadamente e destinada a ser reduzida a pedaos e a p, o vaso de cristal fora providenciado com considerao e amor, e viveria para sempre...
	Atrs dela, a porta do escritrio se abriu.
 Erin?
Ela soubera que era Slater mesmo antes de ele dizer seu nome. Sentira a presena de Slater l, ocupando todo o espao da porta e da sala... com sua energia.
Bem devagar, Erin encarou-o, e toda a dignidade que ela tentara manter durante o abrupto drama da manh, a desertara. Sem se dar conta do que fazia, atirou-se nos braos dele, o rosto pressionado contra o ombro rijo, e soluou como uma criana.
CAPTULO V

Slater segurou-a, at que os soluos de Erin su-issem aos poucos, lentamente, chegando ao silncio.
	Sinto muito  ela falou enfim, e tentou sorrir.  J disse isso antes, no disse? E no paro de interferir em sua vida e no paro de esperar mais e mais de voc. E no paro de lhe pedir desculpas.
Slater no respondeu. Em vez disso a fez afastar-se um pouco, com as mos nos ombros dela, para poder fit-la melhor.
	Ms notcias, ento, no  verdade?  ele perguntou.
	Encontraram de fato o tumor, como supunham  Embora se esforasse em contrrio, a voz de Erin tremia.  Chama-se... oh, no me lembro o nome. Um nome incrivelmente longo e melodioso.
Slater murmurou qualquer coisa que ela no entendeu.
	Poderia ser pior, suponho  Erin continuou.  No  maligno, mas est localizado nas glndulas supra-renais, o que significa que a irregular remessa de hormnios vai prejudicando lentamente o funcionamento do corpo todo e causando aumento exagerado da presso sangunea. Sabe que a conhecida adrenalina aparece quando voc est em perigo; sabe, no?
	Trata-se de reao natural, no  verdade? Isso mesmo. E se normaliza uma vez passado o perigo. S que no caso de minha me no pode voltar ao normal porque o tumor no permite, pois as glndulas continuam produzindo os hormnios. Seria como ficar trancado numa cova de serpentes. A vtima no pode voar, no pode fugir, e com certeza no pode relaxar.
	Se retirarem o tumor, o problema ser resolvido?  indagou Slater.
	A operao foi programada para amanh de manh, mas a coisa no  to simples assim, como parece, Slater. O mdico me explicou em termos tcnicos. Mas, em linguagem simples, sujeitando-a a anestesia, a presso arterial baixaria tanto que a poria em estado de choque. E pacientes morrem de choque, Slater. Tem acontecido.
	Eu sei  disse Slater.  Minha me morreu de choque anestsico.
	Desculpe  sussurrou Erin.  Estou agindo como se eu fosse a nica pessoa no mundo a ter esse problema...
	O mesmo me aconteceu h muitos anos atrs  murmurou Slater.  Por isso sei como  srio o problema.
	Mas como minha me tem necessidade de ficar o mais calma possvel, com medo de que sofra um enfarte antes de a presso ser estabilizada, no contaram nada a ela, apenas a mim. Revelaram-me tudo, e sugeriram que eu fosse para casa e me acalmasse para no assust-la...
	Erin, calma.  normal se assustar num caso desses, e voc precisa mesmo se controlar.
	No me admira ela ter tido dores de cabea. O que me surpreende  no ter sofrido um enfarte, ou cegueira, antes de... Erin, pare. Nada disso aconteceu, no  verdade? E tomaro conta dela agora.
	Tomaro? Assinei os papis, Slater, dando permisso para a cirurgia. Contudo, se algo acontecer com minha me...
	O que acontecer, se eles no a operarem?  Slater indagou.
	Um enfarte, uma queda cardaca, ou cegueira. Ou uma combinao dos trs.
	Nesse caso, voc no teve escolha. Fez a nica coisa que poderia ser feita. E mesmo sendo muito ridiculamente mundano perguntar, como est de finanas? O procedimento hospitalar no vai ser barato.
	Eu sei. E o plano de sade de minha me no  mais to bom, agora que ela trabalha s meio perodo. Mas o custo no importa. Venderei a casa se for necessrio. Tenho algumas aes que meu pai deixou para mim, arranjarei outro emprego para as horas vagas, claro.  Ela olhou a lista que continuava sobre sua mesa.  No sei onde encontrarei tempo, mas tentarei.
	Sabe perfeitamente bem que no precisa se preocupar com dinheiro, Erin. No importando a quantia, cuidarei disso. Tudo o que voc tem a fazer...
	Tudo o que tenho a fazer  me casar com voc  ela disse, com amargor na voz.
Por um momento, Slater no falou nada, Depois, segurou-lhe o brao com fora e a fez encar-lo.
	Droga, Erin! Voc realmente acredita que eu lhe oferea um negcio cujo preo  a vida de sua me?
Ela fitou-o horrorizada, com a garganta to seca que no pde falar. Nunca antes vira-o com aquela feio. Slater ficara zangado algumas vezes, sim; mas nada do que presenciara nos meses em que trabalharam juntos fora uma sombra daquela fria. Ela deu um passo involuntrio para trs. Slater no a deixou ir.
	Voc disse uma vez que no sou o tipo de pessoa que cede a chantagem em negcios. Bem, no lano mo de chantagem nem na vida privada, Erin.
	Claro que no  ela sussurrou.  Sinto muito pelo que falei.
A voz dele era rouca, o sorriso no chegara aos olhos, mas o ultraje se fora da voz quando disse:
	E l vem voc outra vez com suas desculpas.
Erin sentiu-se como se tivesse evitado cair do alto de um penhasco cujas beiradas se desbarrancavam sob seus ps. O corao aquietou-se aos poucos. Slater voltava a ser o Slater normal, calmo, razovel, compreensivo, controlado.
	Se voc quiser me emprestar um dinheiro  ela disse, agora com cuidado , aprecio seu ato mais do que voc poderia imaginar.
Por segundos Erin achou que Slater no iria responder, mas finalmente ele disse:
	Tudo o que tem a fazer  me dizer de quanto precisa. Porm sugiro que no diga a sua me que  um emprstimo. Ela no gostaria da ideia mais do que de vender a casa.
	Talvez seja melhor que lhe diga que foi um bnus, embora s Deus e voc saibam quanto trabalho deixei de fazer. Com licena, Slater, preciso voltar para ela agora.
	Sente-se bem?
	Estou ainda assustada, porm acho que posso disfarar diante de minha me. Slater...
Ela hesitou. Como poderia no lhe agradecer mais uma vez? Slater a deixara chorar, esbravejar, e tremer de medo; e no momento, graas  pacincia dele, ao calor humano, e  ajuda, poderia voltar a encarar a me com a segurana de um sorriso nos lbios.
E, sem pensar uma segunda vez, Erin ps uma das mos no brao dele e, na ponta dos ps, beijou-lhe a face.
Quis que fosse um beijo de amiga, um beijo de gratido, nada mais que isso. Mas algo saiu mal. Slater virou a cabea no instante errado, e os lbios de Erin roaram nos dele, e grudaram.
Sua mo continuava apoiada no brao de Slater, mas no havia outro ponto de contato exceto o daquele doce, quase terno beijo. Slater nem se moveu para abra-la, e o que fora destinado a ser no mais que um gesto discreto, de gratido, de agradecimentos, transformou-se na carcia mais sensual que Erin j experimentara na vida. Seu corpo vibrou violentamente com a fora do desejo.
Ela estivera certa, e errada, acerca de suas especulaes sobre as tcnicas de beijar. Slater era em todos os aspectos to eficiente como esperara; jamais conhecera um homem que pudesse conseguir tanto com to pouco esforo. Mas ele era muito mais do que apenas competente.
Erin tremia quando se afastou de Slater, e no o segurou. Sabia que encontraria um meio de lhe pedir desculpas de novo, dessa vez por haver calculado to mal o beijo.
Mas admitia que, no fundo, no desejava pedir desculpas. Adorara o erro de clculo.
Erin entrou na ponta dos ps no cubculo onde a me se encontrava, meio sedada ainda. Angela suspirou e abriu os olhos.
	Querida  falou com voz suave , disseram-me que voc tinha ido para casa. Mas no me parece nada descansada.
Trate-a com naturalidade, Erin dizia a si mesma. Finja que permanecer o tempo inteiro com o doente neste hospital  rotina para todos, que no h nada preocupante nisso. Que tal, para fingir que as coisas corriam normalmente, dizer que tinha ido trabalhar? Alm disso, nesse caso era a verdade... ou parte da verdade, pois no trabalhara.
	Talvez seja porque acabei indo ao escritrio em vez de em casa.
	Pensei que o sr. Livingstone fosse um pouco mais compassivo num caso destes.
	Ele , e muito. No pediu que eu fosse ao escritrio. Fui porque quis. H alguma coisa que eu possa lhe trazer, mame? Qualquer coisa de que voc goste?
	Uma boa xcara de caf.
	Eles no permitiro que beba caf. Nada de cafena.
	Eu sei. Isso porque vou ser operada amanh de manh.
	Angela parecia cansada, mas devia ser efeito do sedativo.
	Erin  ela continuou , isso  mesmo muito arriscado? A operao?
	Por que pergunta, mame?
	Porque mdicos e enfermeiras no me disseram nada ainda.
	Sabe que sua presso  alta, mame, e eles querem que voc se acalme.
	Mas eu ficaria mais calma se soubesse exatamente o que est acontecendo. Oh, Erin, h tantas coisas mais que eu quero fazer!
	Me, no seja ridcula. Tudo vai sair bem e voc ir para casa em alguns dias, organizando uma lista de tudo o que quer fazer.
	O primeiro item da lista  encontrar mais um emprego para pagar por este tratamento.
	No se preocupe com dinheiro, me.
	E fcil falar. Por certo voc no imagina quanto vai custar. Eu, ao contrrio...
	No importa. J foi providenciado.
	Oh, mesmo? E o que lhe d tanta certeza? Por isso foi ao escritrio esta tarde, Erin, para emprestar o dinheiro de seu chefe? Que juros ir ele lhe cobrar? Ou h algo nesse negcio que eu deveria saber?
O bnus, Erin lembrou-se de repente. Conte-lhe sobre o bnus. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Angela pareceu aliviada. E disse:
	Quero lhe dizer uma coisa sobre o homem: no perde tempo. Viu o que ele me mandou?
	Quem? Slater?
Tarde demais, Erin observou o interesse que brilhou nos olhos da me quando o nome foi pronunciado. Mas Angela no comentou nada, somente apontou para uma pequena prateleira no canto do quarto, onde uma hera muito verde derramava seus galhos de um grande vaso de barro.
Erin no o notara antes. Pensou que escapara a sua vista porque o arranjo era muito simples, parecendo ter a planta crescido l no quarto.
Uma planta, ela pensou. No frgeis flores que murchariam em alguns dias e que depois seriam jogadas fora, mas uma hera com razes profundas na terra, e galhos pendurados, tocando em tudo. Algo que duraria.
Um smbolo da recuperao. Que maravilha Slater dissera sem palavras, pensou Erin.
Lgrimas pularam em seus olhos. Erin esfregou a ponta de um dedo na superfcie do vaso. No sabia por que motivo o pote redondo, rstico, marrom, a fizera se lembrar do frgil vaso de cristal ainda sobre a escrivaninha do escritrio porque se esquecera de devolv-lo a Slater naquela tarde. Os dois objetos eram to diferentes!
Mesmo assim, eram iguais tambm. Ambos slidos, ambos durveis...
Mas, sem a rosa de Dax agora, o vaso de cristal parecia mais glorioso, uma verdadeira beleza que duraria para sempre.
Todas essas minhas consideraes no so realmente sobre potes de barro ou vasos de cristal, ela dizia a si mesma. So sobre solidez e segurana. So sobre o contraste existente entre boas coisas e coisas que apenas aparentam ser boas.
	Caso a operao no seja um sucesso, Erin...  A voz de Angela no passava de um sussurro.
	Isso  bobagem, mame. Pense em coisas alegres.
	No  bobagem. Depois do divrcio, arrumei tudo para que voc no tivesse trabalho. Mas nunca lhe contei onde esto esses papis nem lhe falei sobre os arranjos que fiz.
Erin sentiu seu pnico crescer. A ltima coisa que a me deveria fazer era se preocupar com essas coisas. Mas como faz-la parar? Distrao, essa era a chave... Erin levantou a voz:
	Bem, acho ridculo perdermos tempo falando de um funeral que no acontecer to cedo, isso quando tenho novidades emocionantes para lhe contar.
Erin no sabia de onde vieram aquelas palavras; para seus ouvidos, a prpria voz soara quase estranha. E como iria agora fazer o que dissera? Como sair daquilo?
A porta se abriu e uma enfermeira entrou, olhou para os aparelhos ligados e disse:
	Gom toda esta movimentao no quarto, desligou um fio, sra. Reynolds. O que esteve fazendo aqui? Ginstica? Seu anestesiologista se encontra neste andar agora. Estar aqui logo e conversar com a senhora em alguns minutos.
Assim que a enfermeira saiu, Angela ficou bem parada e, olhando fixamente para a filha, perguntou:
	Bem, e quais so as novidades emocionantes?
Ela precisa de algo positivo em que pensar, Erin disse a si mesma. Algo que a faa olhar para a frente. Algo que fique na cabea dela enquanto for para a cirurgia. Algo que a faa desejar voltar  vida...
Passos se aproximavam da porta. Seria o anestesiologista? Erin pensou logo no que dizer  me. E arriscou:
	Slater me pediu em casamento. E vou aceitar.
Erin esperou surpresa e choque. Angela no desaprovou exatamente, mas no pareceu alegre, tampouco chocada. Claro, como poderia ficar entusiasmada ao ouvir que sua filha pretendia se casar com um homem que ela, Angela, nunca vira?
Mesmo assim, Erin ficou satisfeita com o estratagema. Contente ou no com a notcia, era qualquer coisa com que a me se preocuparia para no pensar tanto na operao.
E, Erin admitia, logo que o perigo tivesse passado, ela calmamente cancelaria o fingido compromisso. Angela ficaria contente, ela resolvera o problema, e Slater jamais saberia de nada.
O homem que imaginaram ser o anestesiologista entrou. Porm no usava um avental branco e nem carregava um estetoscpio. Vestia um terno cinza escuro que Erin vira muito recentemente...
	Al, sra. Reynolds  disse Slater.  Espero que minha visita no a incomode.  E ele nem olhou para Erin.
	 claro que sua visita no me incomoda  respondeu Angela gentilmente.  Estou encantada em conhec-lo finalmente. Em especial desde que, segundo me parece, podemos nos tratar de agora em diante pelo nome de batismo.
	Considerarei isso uma honra, Angela  ele disse, mas sem entender bem o que aquilo significava.
A porta abriu-se mais uma vez e o cubculo encheu-se de homens de avental branco. No apenas o anestesiologista que esperavam mas um grupo de estudantes.
Erin aproveitou a oportunidade e saiu do quarto. Apenas comeara a relaxar, respirando fundo, quando Slater ps a mo no batente da porta fechada, logo acima do ombro dela, e disse:
	Quer me contar o que foi que voc falou a sua me?
	O que eu inventei? A notcia do casamento?
	Isso mesmo. Exatamente o que pensei. Por qu? H mais alguma coisa sobre a qual devo ser prevenido?
	No posso pensar em nada mais.  Erin sacudiu a cabea, num gesto negativo.
	Agora, acho melhor voc me contar como ficamos noivos sem ela saber.
	No sei ainda, preciso pensar. A razo de tudo isso foi que minha me imaginou que eu iria emprestar dinheiro de algum, e preocupou-se quando no poderia ter preocupaes no momento. Ela jamais acreditaria na histria dos bnus. E j havia comeado com uma histria diferente, com uma conversa de recomendaes finais, pois no imaginava sair viva da cirurgia. Eu tive de inventar alguma coisa que prendesse sua ateno. E assim...
	Porm isso me deixa com uma pergunta  disse Slater.
 Desculpe-me por interromp-la. Mas, onde eu fico? Continua firme em sua ideia? Ou aquilo foi simplesmente para ocupar a mente de Angela por agora?
Erin fechou os olhos a fim de refletir melhor. Sim, naturalmente a coisa sensata a dizer seria que inventara aquilo apenas para ocupar a mente da me. Passada a cirurgia e quando ela melhorasse, tudo seria desmentido.
Contudo...
A porta se abriu mais uma vez e os estudantes se retiraram do quarto. O mdico clnico foi o ltimo a sair  perguntou a Erin:
	 a filha da sra. Reynolds, no ? Tem perguntas a me fazer?
	Vo trat-la com carinho, no vo?  Foi a nica coisa que Erin conseguiu dizer.
	E claro que vamos. No sei o que o cirurgio lhe contou, mas... 
Nos cinco minutos seguintes, Erin ouviu uma explicao pormenorizada de tudo o que poderia acontecer na sala de cirurgia na manh seguinte. S no fim da dissertao ela notou que Slater no estava mais l. Ela entrou no quarto e viu-o debruado no leito de Angela, segurando-lhe a mo. O que estaria Slater lhe dizendo? Sorrindo, Angela comentou:
	Vocs dois sabem muito bem como tirar a mente de uma mulher de tudo o mais. Agora descansem um pouco, ok? J me forneceram elementos mais que suficientes em que pensar, como distrao. Chega! Slater, leve Erin para jantar esta noite e faa-a comer. Tudo bem?
Erin ficou sem fala ante a sbita despedida. Obedientemente, beijou a me e no falou mais at chegar na sala das enfermeiras, perto da sada do hospital.
	O que minha me quis dizer com elementos mais que suficientes em que pensar?  Erin indagou.  O que voc falou a ela? E por que no esperou at eu poder entrar no quarto tambm?
	Porque voc estava ocupada demais com o mdico e podia se demorar.
	Ela queria falar com voc em particular?
	Aparentemente, sim. Onde quer jantar?
	No estou com fome. Minha me- pareceu suspeitar de alguma coisa?
	No a conheo bem para julgar. Se voc no tiver preferncia em restaurantes, eu escolho. H vrios aqui por perto e deixarei o nmero de meu celular com as enfermeiras para que a chamem, se houver necessidade.
Erin desistiu. Depois de trabalhar um ano com ele, sabia muito bem que Slater no responderia a uma pergunta caso no quisesse. Teria Angela desejado um momento sozinha com ele para receber bem um novo membro da famlia? Teria acreditado na notcia, como verdadeira, ou a considerado um ardil?
Por que as coisas no ho de ser simples?
No restaurante, Erin limitou-se a olhar para o cardpio e a sacudir a cabea. Slater consultou o garom e, minutos aps, ofereceu um copo de vinho a ela.
	Beba isto, ao menos  ele ordenou.
Erin pegou o copo mais para fazer alguma coisa com as mos do que por vontade de tomar o vinho.
	Ento, aqui estamos  disse ela  porque minha me nos mandou jantar fora. Nunca pensei que voc concordasse em obedecer ordens.
	Por certo no esperava que eu discutisse com ela, uma mulher em sua condio. Pondo de lado o fato de que Angela
tinha razo. Voc precisa comer, querendo ou no. Precisa de toda sua fora amanh, e no h nada que possa fazer esta noite.
	Ento, decidiu mim-la.
	E agora est se perguntando at onde levarei isso. Muito longe, na verdade.
O garom colocou uma cesta de pes entre os dois. O aroma fez com que o apetite de Erin despertasse. Talvez estivesse com fome agora.
	Sua me me perguntou se eu amava voc  declarou Slater, sem a encarar.
O corao de Erin deu um salto.
	E voc disse...
Slater pegou um pedao de po, colocou leo e ervas em cima. E respondeu:
	Voc no acreditaria se eu lhe dissesse que contei a ela que, entre todas as mulheres que tentaram ocupar a posio de minha esposa, voc foi a nica que apresentou boas referncias. Acreditaria?
	Quer dizer que voc lhe contou o que ela queria ouvir?
	Na medida em que pude adivinhar o que seria... sim.
	E ela acreditou em voc, Slater?
	S porque no tive sucesso, dias atrs, em convencer voc de que eu era sagaz, lgico e sensato, isso no quer dizer que no posso ser razoavelmente persuasivo em certas ocasies.
 Slater deu a ela o pedao de po que preparara.  Experimente. E ainda no respondeu a minha pergunta, Erin. Falou seriamente sobre a ideia de se casar comigo ou apenas mentiu em prol da paz de esprito de sua me?
Erin pegou o pedao de po, mas sem saber bem o que fazia. Olhou para Slater e pensou em rosas vermelhas murchas e em vasos de cristal, em imagens e em realidade, em solidez e em sensibilidade, e em segurana.
Ns combinamos, ele dissera. Sim, eles consistiam numa boa combinao e poderiam fazer uma sociedade permanente...
Ento, por que no?
Confiava plenamente em Slater. Voltara a ele  procura de conforto, de reafirmao, de ajuda, e ele estava l, como que esperando.
No era amor, por certo. No era magia. Mas, o que foi mesmo que ele dissera sobre amor? Que a magia s vezes se transformava em melodrama?
O que Slater propusera dar-lhe no fora um romance louco, exaltado, de tirar o flego. Fora uma sociedade que se esperava durar para sempre porque j havia sido provado pelo trabalho que faziam juntos no escritrio.	
O casamento que ele lhe oferecia no era um conto de fadas construdo sobre espumas. No era glamouroso e aparatoso, como a gloriosa rosa vermelha.
Mas rosas murcham, descoram, morrem. Espuma desaparece.
Nem tudo era assim. Algumas coisas no tinham o inicial glamour da flor aveludada, a elegncia da espuma, mas no murchavam ou desintegravam. Eram construdas sobre alicerces muito mais slidos. Duravam.
Coisas como o vaso de cristal de Slater, por exemplo.
Coisas como... o prprio Slater.
Erin respirou fundo.
 Quis dizer exatamente o que falei.ela disse.  Eu me casarei com voc.

CAPTULO VI

Lentamente, Slater colocou o copo de vinho na Imesa. Parecia ter dificuldade at em se mover. Reagia como se no tivesse muita certeza do que ouvira.
Ou, talvez, que ouvira muito bem, mas que a notcia no o agradara...
Pela primeira vez, Erin se perguntava por que ele lhe oferecera a alternativa de um pretenso noivado em vez de um verdadeiro casamento. Temia que ela aceitasse o casamento?
E por que, Slater refletia, Erin preferira inventar razes para o casamento em lugar de aceitar as suas? No houvera nada de hesitante no modo como ela anunciara sua deciso. Naturalmente, o fato de que contara tudo  me antes de mencionar o assunto ao futuro marido tinha um qu de suspeito. Mas a, tinha de ser considerada a circunstncia toda especial, a da doena de Angela.
Era bem importante se considerar o pequeno detalhe de que apenas dois dias atrs Erin rejeitara seu pedido de casamento, e bastante categoricamente.
Estaria Erin agora pensando que ele procurava outra candidata para a posio de esposa?
Talvez adivinhando o pensamento de Slater, ela disse:
	Claro, se voc tiver mudado de ideia... No o culpo. Nos dois ltimos dias no fui esse modelo de rnulher a quem voc props casamento. Lembra-se, a pessoa slida, sensvel, prtica que pensou que eu fosse.
	No mudei de ideia  disse Slater.  Somente quero ter certeza de que sabe o que est fazendo. E por qu. E deixe-me tornar bem claro mais uma vez que se casar comigo no  condio para que eu ajude nas despesas mdicas de sua me.
	Porque no  um chantagista, eu sei. Discutimos isso antes.
	No discutimos precisamente essa variao. Mas sei que no lhe passaria jamais pela cabea a ideia de que, se estou financiando o tratamento de Angela, o melhor meio de me pagar seria vender-se a mim.
A tenso comeou a aumentar em Erin e ela preocupou-se com o desenrolar dos fatos.
	Considerando-se a quanto chegar a quantia da despesa do hospital...  ela sacudiu os ombros  francamente, Slater, duvido que eu valha tanto.
Erin encarou-o e no se surpreendeu ao ver uma fasca de sorriso nos olhos dele. O que a assombrava mais do que tudo em Slater era como seu rosto se suavizava com o sorriso. Nunca o vira antes to relaxado e observou-o por alguns minutos, estupidificada.
Slater estendeu ambas as mos ao longo da mesa, e disse:
Scios?
Ela hesitou uma frao de segundo antes de unir suas mos s dele, palma contra palma. Os dedos de Slater estavam quentes, firmes, tranquilizadores.
Scios  ela sussurrou.
	Bom. Ento agora tenho de lhe contar o resto.
Erin assustou-se.
	O que quer dizer com isso?
	Nada de mais, realmente, apenas que sua me marcou o casamento para trs dias depois da cirurgia. Queria que fosse antes, mas leva algum tempo para se obter uma licena em Missouri.
Trs dias?
	Suspeito agora que Angela j tenha encomendado a banda para o baile  Slater acrescentou.
	Mas ela no pode...
	Foi uma boa coisa voc seguir adiante com seu projeto, eu diria. O que h, Erin? Pensei que quisesse afastar a mente de Angela de sua condio de sade. E, pelo visto, conseguiu.
A sala de espera da sala de cirurgia tinha aspecto horrvel, e cadeiras pouco confortveis. As horas corriam devagar. Os mdicos haviam dito a Erin que a operao seria demorada, que levaria horas. Ela virava as pginas de uma revista, na verdade sem ver nada. Pensava em Angela apertando sua mo enquanto era conduzida para a sala de operao, murmurando:
	Estou to contente, Erin. Sobre Slater, eu quero dizer.
Erin sentiu um alvio imenso quando a me no mencionou nada acerca da banda e do baile. Haveria tempo para isso mais tarde. Quando ela se recuperasse, os planos poderiam ser at adiados. De qualquer maneira, Angela precisaria da filha por algum tempo ainda.
Slater entrou na sala. Erin percebeu antes de v-lo, pelo modo como as pessoas presentes olharam para a porta. No se surpreendia pela reao. Slater era conhecido por chamar ateno onde quer que estivesse. Mas Erin no esperava v-lo no hospital naquela manh. E nem lhe pedira que fosse. Ficaria sentado na horrvel sala durante horas, com tanto trabalho a ser feito no escritrio. Isso ela sabia melhor que ningum. Mas ficou radiante ao v-lo.
Slater vestia-se com simplicidade e, em vez da pasta, carregava uma cesta de vime. Sentou-se perto dela.
	Voc est bem, Erin?
	Melhor agora.  A sala lhe pareceu de repente mais clara, com mais sol.  Mame perguntou sobre voc esta manh. Conquistou-a  primeira vista.
	Tive sorte em conhec-la num momento vulnervel.
	Certo  disse Erin secamente.  Mesmo assim, eu gostaria de saber como conseguiu isso. Esteve no mais do que cinco minutos com ela sozinho ontem, e os dois cobriram imenso territrio.
	Oh, foi uma conversa incrvel!  disse Slater.  Fiquei muito impressionado com a habilidade dela. Agora sei de quem voc herdou seus talentos. Quer tomar o caf da manh comigo?
	No, obrigada. No estou com fome. Alm disso, tentei comer na lanchonete do hospital ontem e conclu que, se eles podem transformar um mingau de aveia em borracha, no vou querer saber o que podem fazer com os ovos.
	Imaginei que a comida aqui no seria nada melhor do que o caf, por isso pedi a Jessup que fizesse alguma coisa de que voc gostasse.
Slater abriu a tampa da cesta e o aroma de queijo quente, tomate, pimento, encheu a sala; a Erin sentiu a boca cheia d'gua.
	No vou ofender Jessup. Quero comer tudo isso.
	Muito bem. Essa  uma atitude que eu aplaudo. No ofender Jessup.  Slater riu muito.  O problema  que o cheiro  to bom que estaremos rodeados de uma multido no instante em que eu desembrulhar as coisas. Mas h um pequeno quarto depois do hall, vazio no momento.
No minsculo quarto deserto havia uma mesa onde a comida foi colocada. Erin enfiou o garfo num quadrado aromtico.
	Uma torta sem crosta, no ?  disse.
	Acredito que, se voc concordar, ele vai batizar esse prato de "ovos  Ia Erin".  Slater pegou algumas torradas, manteiga e gelia e preparou um prato para si.  Antes que me esquea, Jessup me pediu que lhe dissesse que est muito contente com nosso casamento.
Erin sentiu forte tenso. Na verdade, ela no se demorara muito em pensar no que diriam as pessoas ao saberem de seu casamento, apenas sabia que no estava pronta a encarar a reao de todos. Mas, se Slater j contara ao mordomo...
Porm logo lembrou-se que quem dera a notcia  me fora ela, antes mesmo de Slater saber!
Erin no havia se dado conta de como estava faminta at esvaziar seu prato.
	Tudo foi uma delcia!  exclamou enquanto Slater embrulhava o resto.  Agora sinto que posso enfrentar qualquer situao. Obrigada, Slater.
	 isso uma despedida?
	Bem, apenas pensei... Sei como o servio no escritrio deve estar acumulado, agora sem minha ajuda...
	Ficarei aqui o mximo que puder. Mas, voc tem razo, h muito servio l. E no comece a se sentir culpada. Foi uma boa oportunidade para eu saber como seu trabalho  valioso.
	Mas eu devia...
	Voc devia ficar aqui com sua me. Eu diria que tudo deu certo para providenciarmos os seis sobrinhos de tia Hermione.
	Entendi que voc dissera que eram oito.  Depois de falar, Erin corou, e acrescentou:  Eu quis dizer...
	Voc estava tresnoitada demais para registrar a conversa que tivemos.
	Devia estar mesmo. Com certeza no quis dizer...  Ela afundava cada vez mais. Oh, por que no fingira no se lembrar da troca de palavras daquele dia?
	Mas no est querendo mudar de ideia, est?  insistiu Slater.  Esquea da bobagem que falamos sobre filhos, e pense apenas na sociedade que iremos formar.
	Enorme mudana para mim, Slater.
	No na verdade. Nada ser muito diferente, no at voc estar pronta.
	E se eu nunca ficar pronta?
	J conversamos sobre isso antes, Erin. Tudo sair bem. Voc ver.
Porm ela concluiu que Slater no apenas procurava convenc-la de que agiam certo, como procurava se convencer tambm.
A cirurgia levou horas e o cirurgio parecia cansado quando saiu da sala para dar o relatrio a Erin. Ela agarrava a mo de Slater, enterrando os dedos para relaxar.
	Tudo foi muito bem  disse o mdico.  Acho que posso garantir que, a longo prazo, conseguiremos a cura completa. Agora v para casa e descanse, pois ela precisar de voc mais amanh quando comear a se sentir melhor.  Ele deu umas pancadinhas no ombro de Erin e partiu para ver o prximo paciente.
Slater ficou com Erin at que ela se sentisse melhor, e deixou-a com um beijo rpido, quase fraternal, no rosto. Erin ficou contente com isso, pois no teria condies de enfrentar um beijo pblico, nos corredores do hospital. Foi ao quarto da me. Sem ter muita certeza, contudo, se era a condio pblica do beijo o que fazia suas entranhas tremerem.
Quando Erin apareceu no escritrio, usando a mesma roupa que usara no hospital aquela manh, Sarah fitou-a atnita e disse:
	O sr. Livingstone contou-me que voc ficaria em casa o resto da semana.
	Deixando voc  merc de um dinossauro qualquer? Eu no poderia ser to cruel.
	Mas sabe de uma coisa? Pensei que sem voc ele seria pior do que nunca, mas no rosnou nem uma vez, nem mesmo quando no pude encontrar em seu escritrio um arquivo que ele queria. Tudo o que disse foi "obrigado por tentar". Que tipo de magia voc operou nele?
Muito bem, a pergunta de Sarah significava que Slater no lhe contara nada sobre o noivado. Com tanta coisa em que pensar, Erin no queria sofrer as consequncias, boas ou ms, de um anncio pblico.
Confiar a notcia a Jessup era diferente. Claro, o mordomo teria de fazer algumas alteraes no apartamento antes de uma esposa ser instalada l. S porque ela no encontrara no quarto de hspedes vestgio de ter sido ocupado por mulheres, isso no significava que o mesmo acontecia com o resto do apartamento.
	Enfim  Sarah continuava falando , o fato de ele ter se comportado como um cavalheiro at agora, no quer dizer que a coisa no v mudar.
	Esqueci-me de lhe falar, Sarah, que o arquivo que ele procurava estava trancado em minha escrivaninha.  Erin procurou pelas chaves e encontrou o tal arquivo na ltima gaveta de baixo.
	Mais uma coisa  disse Sarah.  Dax Porter esteve aqui mais cedo  procura dos relatrios que ele trouxera. Eu no sabia onde ach-los.
Erin puxou uma pasta do meio de uma pilha, na prateleira, e disse:
	Talvez eu deva desenhar um mapa.
Sarah retirou-se. Erin estava acabando o trabalho que deixara pela metade dois dias atrs, quando Slater bateu na porta.
	O que est fazendo aqui, Erin? O mdico mandou que descansasse.
	Isto  descanso, em comparao ao que passei. A menos, claro, se voc veio para acrescentar alguns itens em minha lista.
	Acho que eu no ousaria.  Ele sorriu.  Como est sua me?
	E disso que eu estou escapando. Ela voltou da anestesia falando sobre vestidos de noiva, e ponche de champanhe.
	Voc disse que queria ocupar a mente dela com algo positivo. Eu diria que fez o que decidira fazer.
	Bem, mas no queria que pensasse em uma nica coisa. Est planejando um casamento para segunda-feira e ficar de sapontada ao saber que no ser possvel por causa da licena.
Slater sorriu e Erin ficou desconfiada.
	Voc no conseguiu a licena, conseguiu?  Ela pde ver a resposta no olhar de Slater.  Conseguiu? Por qu? E quando teve tempo para isso?
	Esta manh, depois que sa do hospital. E quanto ao "por qu", decerto no queria brigar com minha sogra antes at do relacionamento oficial.
Erin suspirou. A vida era bem menos complicada quando eu apenas trabalhava para ele, pensou. Ou ao menos quando meu ttulo principal era assistente, no prxima esposa...
	Olhe  ele disse , no h razo para adiarmos, e para adiar uma infinidade de coisas boas. Ademais, nosso calendrio est cheio para durante vrias semanas depois do casamento.
	E voc gostaria de ter uma anfitri oficial a bordo.
	E tornaria as coisas mais fceis para voc, tambm, estar morando no lugar da festa. Isso lhe daria mais tempo com sua me, em vez de ir de c para l. E a doena dela ser uma tima desculpa para termos uma cerimnia pequena, ntima.
Se adiarmos mais...
	Haver centenas de pessoas esperando ser convidadas.
	Que acha disso, Erin?
	Mal posso esperar pela segunda-feira  ela disse, com ironia na voz.
	 o que eu esperava que voc dissesse. Ento...  Ele ps no centro da escrivaninha um estojo de veludo.
O que poderia ser? Um enorme anel de brilhante para chamar a ateno de todos?
Erin olhou para o estojo e recordou-se que, no ano inteiro em que trabalhara para Slater, nunca o vira comprar algo de mau gosto, como tambm nunca o vira comprar uma jia feminina.
	Se voc est me considerando presunoso por no lhe ter dado chance de escolher seu anel de noivado, concordo.
	Nesse caso, por qu...
	Porque acho que sua me esperar que voc volte ao hospital usando um. E, se no gostar deste, poder troc-lo assim que as coisas se normalizarem. Mas no quer ao menos ver?
Ela abriu o estojo e ficou atnita.
A pedra do centro era uma safira muito azul, linda, mas no to grande para ser considerada pretensiosa. O aro de ouro, perfeito para a mo dela, era delicado, e a safira estava circundada de pequenos brilhantes.
 lindo, Slater.  Erin tirou o anel do estojo e girou-o em suas mos, observando a pedra refletir a luz. Algumas vezes o azul parecia quase roxo, outras vezes tinha qualquer coisa de verde. Diamantes so to frios! Safira  uma pedra espetacular. S que...
Do que voc no gosta, Erin?
Ela sacudiu a cabea.
	No foi isso que eu quis dizer. O anel  perfeito. Mas voc se importaria s eu no o usar j? Excetuando-se na frente de mame, claro.
	Quer esperar pelo casamento.  isso?
	Claro. Sei que estou s adiando as coisas, mas por agora...
Slater pegou o anel e colocou-o no dedo dela. Depois ficou olhando para a jia por longo tempo.
Erin se perguntava em que pensava ele enquanto observava o anel, smbolo fsico do acordo que haviam feito. Estaria Slater esperanoso? Confiante? Cauteloso? Apreensivo?
	Fica lindo em seu dedo  ele falou.  Achei que ficaria, mas me alegro por voc ter aprovado meu gosto.  Tirou o anel do dedo de Erin, colocou-o no estojo e o ps na palma da mo dela.  Use-o ou no o use, de acordo com sua vontade.
Erin desapontou um pouco. Para Slater, obviamente, o anel no tinha mais sentido sentimental do que uma caneta-tinteiro que ele usaria para assinar um contrato importante. Para ele, no era smbolo de nada, apenas um anel.
Erin guardou o estojo numa gaveta e, quando ergueu a cabea, deparou com outro estojo de veludo em cima da escrivaninha, esse um pouco maior.
	Oh, mais um?!  exclamou ela.
	Esse  diferente  respondeu Slater.  Voc disse que sua me no acreditaria que voc ganhara um bnus, por isso imaginei que seria interessante ter algo mais concreto para lhe mostrar.
	Um bnus? Por qu?  Erin abriu o estojo. Dentro havia, sobre o cetim branco, um par de brincos de safira.  Agora quer me dizer, Slater, como poderia eu ter ganho tanto dinheiro para comprar estes...
	Bob Brannagan assinou o contrato esta tarde.
Por instantes, Erin no registrou a notcia.
	No vejo o que...  ela ia dizendo.  Ele assinou? Que maravilha! Descobriu o motivo da hesitao de dias atrs?
	Mais ou menos  disse Slater.  S sei que o resultado final foi obra sua.
	No tenho nada a ver com o caso  ela protestou.
	Ao contrrio. Voc me disse que a sra. Brannagan no tinha gostado nada de Cecile, e quando lhe perguntei se isso era verdade...
	No pode estar falando srio. Brannagan ps em suas mos o futuro de um negcio de um bilho de dlares em satlite de comunicaes depois do afastamento de Cecile, s porque Francs Brannagan no gostara dela?
	Francs lera Cecile como uma mquina de raio X  comentou Slater  e convencera-se de que meu julgamento era falho. Influenciado pela mulher, Bob comeara a se perguntar se realmente queria fazer o negcio comigo.
	Porque a esposa no aprovava seu gosto em relao a mulheres?!
	Coisas estranhas acontecem no mundo dos negcios, Erin.
	E ento voc contou que Cecile era coisa do passado, e ele assinou? Eu me pergunto o que Francs dir quando ouvir que vamos nos casar.
	Ela j disse que quer um convite para o casamento  Slater murmurou.  Eu garanti a voc que seria uma boa sociedade a nossa. No garanti?
Quando Erin entrou no quarto de Angela na segunda-feira  noite, ficou surpreendida ao constatar como a me estava bem. Ainda plida, cansada, com mais algumas linhas no rosto, mas para uma mulher que dias antes estivera  beira da morte, Angela tinha aspecto maravilhoso.
	Se eu no a conhecesse bem, mame, diria que  uma visita e no a paciente.
	Se voc continuar falando assim, eles me mandaro em bora do hospital amanh mesmo, Erin. E quero descansar mais
um pouco.  Ela examinou a filha.  Por favor, diga-me por que est usando essa minha capa velha?
	Porque est chovendo, mame, e no sei onde pus a minha.
Ela tirou ento a capa para que a me visse seu lindo vestido de coquetel.
Muito melhor.  Angela suspirou.  Lindo vestido, querida. Quando voc o comprou para a conveno, no imaginei que acabaria sendo seu vestido de noiva. Sempre a visualizava de branco, com um vestido de cetim bordado, cauda e longo vu de renda...
Uma enfermeira entrou no quarto e recomendou a Erin:
Sua me tem aspecto melhor do que realmente est. No a deixe se cansar muito durante a cerimnia do casamento. Que acha de irem ao solrio?
As trs mulheres percorreram o imenso corredor, Angela em cadeira de rodas, para dirigir-se ao solrio. Era um pequeno terrao onde os pacientes podiam descansar e tomar um pouco de sol. Naquele dia, fim de tarde e chovendo torrencialmente, no teria atmosfera festiva. Mas isso no importava mais como no importavam o cetim branco e a renda, as flores e as velas acesas.
Enfim, estariam presentes apenas Erin e Slater, o juiz, um anel, Angela e uma enfermeira para servir de testemunha. Seria tudo. Erin no teria se importado com coisa alguma mais do que o necessrio para a concluso de um negcio comum. Usaria as mesmas roupas que usava para trabalhar se no soubesse que a me ficaria desapontada. De fato, casar-se na cabeceira da cama da me seria perfeito para ela, mas Angela insistira no solrio. No era muito, dissera, mas o melhor possvel ante a situao.
A caminho do solrio, Erin andou mais devagar ao ver Slater esperando-a no hall. Ps a mo no pescoo e acariciou a medalha que sempre a acompanhava, na corrente.
	Ainda com dvidas, Erin?  ele lhe perguntou.
	Demonstro isso to claramente assim?
	Est mexendo na corrente de novo.
	Oh, acho que adquiri o hbito de esfregar a medalha entre meus dedos. Estou tensa, Slater voc me promete uma coisa? 
	Depende inteiramente do que vai me pedir. --- Ele falava com voz grave. 
	Sei que voc pensa agora que no vai nunca se apaixonar por mais ningum, mas se isso acontecer um dia... 
	Este nosso contrato  solene e nquebrvel, Erin.
	Porm quero que me prometa que, se isso acontecer, vai me contar.  Como ele demorasse em responder, Erin insistiu:
	Por que hesita em prometer? Tem tanta certeza assim de que isso no poder acontecer?
Slater sorriu preguiosamente.
	Lembre-me, Erin, de fazer objeo a voc se decidir estudar Direito. J  bastante perigosa como .
Antes de Erin chamar a ateno de Slater de que ele no respondera a sua pergunta, Sarah apareceu carregando uma enorme caixa.
	 aqui que esto  ela disse.  Peguei esta caixa das mos de Tnio e corri, achando que no chegaria a tempo por causa do trfego.
Slater abriu a caixa e tirou de dentro um buque. As flores estavam amarradas com fitas brancas. Sarah arregalou os olhos.
	Um buque de noiva?!  exclamou.
	 lindo, Slater!  disse Erin, examinando cada flor.
	No posso transformar o solrio numa catedral, mas no vejo razo para voc no ter flores em seu casamento.
	Esto se casando?  A voz de Sarah foi um sussurro. 	Claro, percebi que vocs dois estavam interessados, um no outro. Mas achei que trazia flores para a me de Erin, porque Tnio no tinha entregador. Contudo, no entendi a razo de as flores terem de chegar aqui s cinco horas em ponto.
	Agora sabe  disse Slater.  Venha Sarah. Voc poder ser uma testemunha.  Ele abriu a porta do solrio.
O local estava repleto de flores, de gente, e de bolas de gs amarradas com fitas de cetim. Sarah viu logo Jessup, a sra. Brannagan sorrindo e segurando um leno de renda para o caso de necessitar dele. Todas as enfermeiras de Angela se encontravam l e o cirurgio tambm. Numa mesa do canto havia ponche e um enorme bolo de camadas.
Erin sentia-se quase tonta. No posso transformar o solrio numa catedral, ele dissera. Mas obviamente Slater fizera o possvel para providenciar o essencial.
Um homem que ela no vira antes no grupo aproximou-se e disse suavemente:
	Al, Erin.
Ela fitou-o por alguns segundos.
Oh, sim, disse a si mesma. Seu futuro marido providenciara at aquilo.
Furiosa, virou-se para Slater e vociferou, cheia de raiva:
 Suponho que voc no gostar de ter de me explicar por que exatamente meu pai soube que eu ia me casar, e o que o fez pensar que eu queria que ele viesse.

CAPITULO VII

Slater respondeu muito calmamente:  Ele soube porque eu lhe contei.
	E decidiu, por sua conta, convid-lo sem me perguntar se eu queria?
Jack Reynolds deu dois passos  frente.
Erin, no h necessidade...
 Sem nem mesmo olhar para o pai, Erin cortou-lhe a palavra:
	Fique fora disso, pai.
	Achei que ele tinha o direito de saber sobre o casamento da prpria filha  Slater veio ao socorro do futuro sogro.
	E o que sabe voc dos direitos dele?  Erin protestou.
 Pensou por acaso em como minha me iria se sentir? Tendo acabado de passar por uma experincia difcil, o momento no era adequado para to desagradvel surpresa.
Minutos aps essa troca de palavras, a porta se abriu e Angela entrou no solrio em cadeira de rodas, empurrada pela .enfermeira.
Os trs, Slater, Erin e Jack Reynolds, estavam perto da porta por isso no houve tempo de Erin prevenir a me.
Ela teve vontade de cobrir os olhos, mas estava como que hipnotizada para se mover. Enxergou choque no rosto do pai e encarou a me.
Erin achou que Angela iria ter a impresso de que via um fantasma. Mas no foi isso que pareceu.
Gentilmente, Jack Reynolds colocou a mo no ombro da ex-esposa, e esta ergueu o brao para tocar-lhe os dedos.
Erin viu logo uma aliana no dedo do pai. No sabia que ele se casara de novo. Iria sua me chocar-se com o fato? Porm Angela disse com muita calma:
	Jack, obrigada por ter vindo.
A calma de Angela intrigou Erin. Ela no poderia ter escondido to bem sua surpresa, sem a menor sombra de agitao. O que com toda certeza queria dizer... que fora prevenida.
A acusao que Erin fizera a Slater, de que agira sem considerao aos sentimentos de Angela, havia sido precipitada e insolente, e errada.
Mais tarde, desculpou-se com Slater.
	Fiquei to surpreendida ao ver meu pai aqui, Slater, que tirei concluses apressadas. Eu devia ter sabido que voc no faria tal coisa sem pedir permisso a minha me. Mas, por que no me preveniu?
	Sua me no quis que voc tivesse muitas esperanas, receando que ele no viesse.
	J sei... Entendi tudo... Minha me pediu-lhe para entrar em contato com meu pai  comentou Erin  para que, caso eu no gostasse da ideia, voc assumiria a culpa. E assim eu no ficaria furiosa com ela.
Slater no respondeu com palavras, mas Erin viu a resposta na expresso dos olhos dele.
Assim que teve chance, Jack Reynolds falou, com muita calma:
	Erin, este  um dia muito especial para voc, e sei que no me deseja aqui, do contrrio teria me convidado pessoalmente. Sua me achou que voc um dia poderia lamentar o fato de eu no ter comparecido. Mas decida: irei embora imediatamente se no quiser me ver, mas de minha parte eu gostaria muito de ter o prazer de assistir ao casamento de minha nica filha.
Slater no deu uma palavra, Angela pareceu parar de respirar. Erin colocou a mo no brao do pai, e disse:
	Se puder abrir passagem por aqui, em qualquer lugar, papai, talvez possa me conduzir ao que seria considerado um altar, na igreja.
As pessoas presentes abriram espao e assim se pde ver o juiz esperando por eles, silhuetado contra os vitrais da extremidade da sala.
A cerimnia foi rpida. Slater tomou a mo de sua noiva; os dedos dele estavam quentes e firmes quando puseram a aliana no dedo de Erin. S ento ela relaxou um pouco.
	Pode beijar sua noiva agora  disse o juiz, e Erin, tremendo por dentro, ergueu o rosto obedientemente para que Slater a beijasse.
Ela no esperava que o beijo fosse como o primeiro, uma carcia violenta. De qualquer forma, como poderia ser, com toda aquela audincia de olho neles? Ela estava certa. Sim, houve muitas diferenas no beijo. Foi vagaroso, deliberado, experiente, no focalizado apenas na boca, mas se espalhou por todo o corpo dela uma carcia, pois Slater a trouxera para bem junto a si. E, em vez da chama repentina queimando-lhe a pele como o sol de vero, aquele beijo criou um calor que lhe percorreu os ossos tal qual um vulco. A nica coisa que no mudou no beijo foi o modo como a deixou, area, comple-tamente sem equilbrio, sem que lhe restasse fora alguma. O homem no era apenas eficiente e super competente, Erin disse a si mesma, ele era tambm verstil.
Perguntava-se onde Slater aprendera tudo aquilo.
Ele continuou envolvendo-lhe a cintura com o brao e a fez olhar para os assistentes. Por um longo momento tudo pareceu imvel para Erin, como numa fotografia. Depois, as pessoas comearam a se mover, como num filme.
A enfermeira tocou no ombro dela.
	Passou da hora de sua me ir para a cama  disse.  Porm ela recusa se retirar da festa.
Erin correu para o lado da me. Podia ver traos de fadiga no rosto de Angela.
	Est na hora de voc se recolher, mame  ela declarou.  V descansar, sim?
	Estou cansada, mas valeu cada minuto, mesmo que eu sinta dor durante uma semana. Voc vai passar por meu quarto antes de sair?
Foi Slater quem respondeu:
	Naturalmente.
	Gostei muito de voc ter vindo, Jack  disse Angela, estendendo a mo ao ex-marido. Sei como deve estar ocupado.
Tenha uma boa viagem de retorno.
Jack Reynolds segurou-lhe a mo por alguns segundos e afastou-se para deixar o carrinho passar. Logo depois disse a Erin:
	Eu tambm vou embora. Estou com o tempo exato de chegar ao aeroporto para meu vo de volta a San Diego.
	Vai embora assim to depressa?  perguntou Erin.
	Foi uma viagem resolvida repentinamente.
	Entendo. Sei que voc deve ter outras obrigaes. Mas tive muito prazer por ter vindo, papai. Realmente.
	E eu fiquei contente de vir, meu "trevo de quatro folhas". Se... Bem, Slater tem o nmero de meu telefone.
Antes que Erin pudesse dizer qualquer coisa, ele se foi.
	Trevo?  Slater sussurrou.
	Meu pai costumava dizer que eu era seu talism, como um trevo de quatro folhas. Portanto...
Ela parou de falar, limpou a garganta e, com determinao, dirigiu-se aos convidados, recepcionando-os.
A festa durou mais uma hora e terminou porque o hospital ia fechar para a noite. Slater perguntou-lhe se ela estava decidida a sair.
O pnico tomou conta de Erin. Estaria ela pronta para ir com o marido? Pronta para fazer da casa dele a sua? Pronta para ser realmente esposa de Slater?
	E o que vamos fazer com as sobras?  ela perguntou, olhando ao redor.  No podemos deixar tudo assim. 
	J foi providenciado. As bolas de gs vo para a ala de pediatria. As flores para a maternidade.
	Legal!  Erin arrumou uma fita do buque.  Voc prometeu que iramos ver minha me antes de sair.
	Ela deve estar dormindo agora. Se estiver, deixaremos um recado para no acord-la.
Angela no estava dormindo. Pelo fato de a porta estar ligeiramente aberta, Erin pde ouvir vozes no quarto.
	Meu pai est l dentro!  disse ela, de olhos arregalados, pois reconhecera a voz.
	No parece preocupado em perder o avio para San Diego, no acha? Parecia to angustiado!  Slater comentou.
	Voc no se surpreende?
	Pelo visto, ambos tm muito a conversar. Acho melhor no interromp-los.
	Tambm acho.  Erin escreveu ento um bilhete e deixou-o no departamento das enfermeiras para ser entregue  me.
A porta do hospital, ela hesitou, comeando a tremer. A chuva parara, mas o cu ainda estava encoberto, cheio de nuvens escuras.
	Minha capa ficou no quarto de mame  Erin disse de repente.
	Mas  melhor voc no voltar l.  Slater despiu o prprio sobretudo e colocou-o nos ombros de Erin. A l suave conservava o calor do corpo dele e o aroma da loo ps-barba.
O apartamento de Slater estava na semi-obscuridade e silencioso. To logo entrou, Erin tirou o sobretudo.
	Gosto de seu vestido  Slater comentou.  J a vi com ele antes, no foi? Ou  essa uma das perguntas que os maridos no devem fazer?
Marido, ela pensou. Erin esboou um sorriso forado. Marido!
	No, voc nunca viu este vestido antes. Comprei-o para uma conveno organizada pela firma na ltima primavera, para nossos clientes, mas eu ainda no pertencia a seu grupo de trabalho, estava no departamento de relaes pblicas na ocasio. Foi quando fiz um discurso que me valeu a promoo para ser sua assistente.
	Diga a verdade, Erin. Voc no sabia que eu estava l quando comeou a falar?

	Claro que no. E foi muito boa coisa, pois se tivesse sabido, teria ficado com a lngua presa, como uma tonta.
	Voc? Duvido.
	Juro.  Ela olhou  volta e constatou que nunca vira o hall to escuro.  Pensei que Jessup fosse deixar o apartamento feericamente iluminado. Ele saiu da festa umas duas horas antes de ns.
	Jessup est tirando uns dois dias de folga. Disse que deixaria uma ceia simples para ns.
Em frente  lareira havia uma mesa posta para duas pessoas, com cristais, pratas, e pratos de aperitivos. Perto, num carrinho de ch, fora colocada uma bandeja eltrica que emitia um aroma delicioso.
	Uma refeio composta de dois pratos ele chama de ceia simples?  comentou Erin, aps espiar o que havia na bandeja.
	E deve haver uma sobremesa em algum lugar por a.
	O que faz trs pratos.
	A menos que ele assumisse que iramos trazer o resto do bolo de camadas em vez de deix-lo para as enfermeiras do hospital, conforme fizemos.
Slater abriu uma garrafa de champanhe e sentou-se na frente de Erin. A sopa era Cremosa, de pepino, com uma cobertura de molho de tomate, servida gelada.
	Se no fosse gelada seria perfeita para nossa festa da noite de Natal. Veja, so as cores tpicas do Natal, verde e vermelho  comentou ela.
	Poderia ser servida quente  Slater observou.  Tomarei nota disso.
Esse comentrio fez Erin se lembrar de seus compromissos anotados no caderno de capa de couro onde estavam em detalhes no apenas seus compromissos como os de Slater. No momento, ela no podia se recordar onde deixara o caderno. Na escrivaninha, talvez? Seu dia fora to agitado que a fizera se esquecer de tudo, at de coisas importantes.
	No consigo me lembrar de qual  nossa prxima atividade social programada  ela confessou a Slater.  A do senador?
Esqueci-me de perguntar a Sarah se foi reprogramada.
	No. Est ainda em suspenso no momento  Slater respondeu.  Enviei os bilhetes para uma escola de dana que d aulas grtis para crianas necessitadas.
	Ideia maravilhosa. Havia me esquecido completamente dos bilhetes.  Erin tentou sorrir.  Se eu no conseguir controlar minha cabea logo, voc ter de contratar outra assistente.
	 interessante voc chamar minha ateno sobre como  eficiente e equilibrada...
	Estou ouvindo um pouco de sarcasmo nessas palavras?
	Absolutamente, no. Por qu?
	No  atitude de uma pessoa equilibrada aceitar como certo voc decidir, sozinho, juntar a famlia Reynolds sem se preocupar em saber como era essa famlia.
	E o que mais pensou sobre meu ato, afinal?  Slater indagou.
	Agora que parei um pouco para refletir, lembrei-me de que voc no disse precisamente que fora sua a ideia de convidar meu pai. Mas no disse que no fora, tampouco.
	Deixe-me confessar apenas uma coisa. Eu no tinha tanta certeza, como Angela parecia ter, de que voc ficaria contente em se ver face-a-face com seu pai.
	Acha que minha me tinha certeza absoluta de que eu no ficaria irritada com ela?  Erin perguntou.
	Absoluta, absoluta, no  ele respondeu aps certa hesitao.  No fundo receava que voc"a culpasse.
	Ento, por que ela fez isso?
	Por que estava ainda mais preocupada se, com o passar do tempo e pensando com mais calma, voc lamentasse no o haver convidado.
	Talvez ela esteja certa.
	Garanto que Angela gostar de ouvir isso.
	Ao menos ela pde ter certeza de que valeu a pena sofrer urn pouco  Erin comentou.  No posso acreditar que meu pai, no quarto com ela no hospital, estivesse apenas tomando ar. Eu me pergunto...
	O qu?
	Se estava lhe contando sobre sua vida com a nova esposa.
	Notei que ele usava aliana. Voc no sabia que seu pai havia se casado pela segunda vez?
	No. Embora, pensando bem, por que no se casar? Minha me teve seus casos amorosos, apenas no encontrou um homem que gostaria de ter como marido. Mas eu preferia que meu pai tivesse me contado. Nem tive chance de falar com ele hoje.
	Seu pai disse que voc poderia lhe telefonar quando quisesse.
	E conversar com a mulher dele? Uma mulher cujo nome eu nem sei? Suponho, contudo, que eu deva manter contato. Posso ter irmozinhos algum dia.
	Quem sabe? Podero at brincar com os sobrinhos de tia Hermione.
Erin entrou em pnico. Pusera a mo no pescoo e no sentira a corrente de ouro.
	O que houve, Erin?  Slater lhe perguntou.
	Minha corrente...  Ela passava a mo pelo pescoo.  Devo ter quebrado o fecho... oh, no, ficou presa em uma lantejoula. Incrvel no ter quebrado. Seria irnico perder o presente de casamento de meu pai para minha me justamente hoje.
	Por isso ama tanto essa corrente?
	Claro. Minha me deu-a para mina quando se consolidou o divrcio, e nunca a tirei do pescoo desde ento.
	Pensei que tivesse algo a ver com o homem que voc ama  disse Slater.
	Que homem?  Erin ficou intrigada.  No h ningum, Slater. Se houvesse algum especial em minha vida, eu nunca teria...
O resto da sentena soou nos ouvidos dela: Eu nunca teria me casado com voc, Slater... porque voc no  especial.
	Eu quis dizer...  ela emendou depressa.  No quis dizer no modo como soou.
	Claro que no quis. Estava apenas fazendo com que eu me lembrasse de nossa sociedade apenas de negcios.
Erin olhava para a corrente de Angela, ainda em suas mos. Havia algo estranho naquilo, ela pensou. Mas afastou a ideia. De qualquer maneira, tinha coisas mais importantes em que se ocupar. Mas, de qualquer maneira, no poderia permitir que aquele incidente criasse razes.
	Desculpe, Slater.
	Desculpar pelo qu? Por me fazer lembrar das regras estabelecidas?  A voz dele estava perfeitamente calma.
Oh, ento ele precisava ser lembrado? Tudo bem, ela disse a si mesma. Slater se casara com ela achando que havia outro homem em sua vida, um homem que ela amava. Portanto, da se deduzia que no importava a ele se havia ou no havia esse homem. Contanto que eles vivessem dentro das regras estabelecidas.
Voc  uma tonta, Erin Reynolds... Erin Livingstone...
	Voc parece cansada, Erin.
	No to cansada a ponto de no poder ajudar voc a arrumar tudo aqui. Presumo que Jessup no volte to cedo. 
	No, dei-lhe alguns dias de folga. Mas vou colocar a loua na lavadora e depois trabalhar no contrato de Bob Brannagan. Por que voc no vai dormir? Jessup ps suas coisas no quarto de hspedes ao lado da biblioteca.
Erin ficou gelada. Mas era absurdo se surpreender com os arranjos que ele fizera, disse a si mesma. A primeira vez em que discutiram a possibilidade de fazer do casamento deles mais do que negcio, o assunto resultara em nada porque ela o rejeitara. Fora naquela noite louca em que Slater apresentara a ideia em primeiro lugar, quando dissera que a deciso final seria dela.
Desde ento, sim, brincavam apenas sobre os sobrinhos de tia Hermione. Nunca mais encararam o assunto seriamente.
Erin devia se sentir grata por Slater ter cumprido sua promessa de no insistir. Ele dissera que esperaria at ela aceitar a ideia, e...
E, precisamente, quando foi que aquilo acontecera?, Erin se perguntava. Exatamente quando ele ultrapassara a ideia do relacionamento fsico na esperana de que o casamento deles incluiria amor? Porque no havia dvida de que Slater mudara de ideia.
Erin no se lembrava de um momento decisivo em que isso havia acontecido. Apenas sabia que as ideias dela se haviam alterado nos ltimos dias. Decidira casar-se com Slater sem amor. Mesmo sem grande paixo, poderiam ter o conforto de uma famlia. Criar filhos seria outra faceta do negcio.
Mas essa era uma dificuldade que nenhum dos dois previra. Fico satisfeito em deixar essa deciso para o futuro, Slater dissera, e era exatamente o que ele estava fazendo. Mas deixaram o futuro indefinido.
Como poderia Erin fazer com que ele soubesse que ela mudara de ideia? Jogar indiretas? Esperava que ele lesse sua mente? Mandar-lhe um telegrama?
Imaginou que a maneira mais direta seria atirar-se nos braos dele e dizer: Sabe, por falar em relacionamento, de negcios ou no, estou ansiosa para ir  cama com voc. Erin sentiu-se corar s em pensar.
Slater afagou-lhe o rosto.
 Tudo bem, Erin. No se atormente.  Ele beijou-a na testa e disse:  Boa noite, querida.
O que mais ela poderia fazer, alm de ir embora?
O quarto que lhe fora reservado fora o mesmo da outra vez. Sua escova de cabelos estava na penteadeira, as malas perto dos armrios, os agasalhos dobrados nas gavetas. Mas no se sentia em casa. Muito bom, pois enquanto usava aquele quarto no era nada mais do que uma hspede naquele lar.
Os lenis eram de cetim, lindos. Mas no confortveis. Com sua camisola de seda, escorregava o tempo todo na cama.
Isso  ridculo, a voz de sua conscincia sussurrava. No h razo para voc estar a. O que tem de fazer  atravessar aquele hall, entrar na biblioteca e interromper o trabalho de Slater dizendo-lhe que decidiu no querer dormir em quartos separados, afinal...
Erin fraquejou  ideia. Talvez ela pudesse apenas dizer que no se sentia bem naquele quarto, ou pedir-lhe que providenciasse lenis comuns.
Mas antes de decidir por completo o que iria pedir, viu-se na entrada da biblioteca, j abrindo a porta.
A sala estava completamente s escuras.
Ou Slater mudara de ideia, ou levara seu trabalho para fazer na cama.
Erin jamais sentira-se to s em toda sua vida. Lgrimas corriam-lhe pelas faces e ela comeou a soluar.
Uma porta se abriu no balco, quase acima da cabea dela. Uma porta que no notara antes porque parecia ser parte das prateleiras. Um raio de luz entrou.
	Erin?  Slater apareceu. Sua camisa estava desabotoada, a gravata solta.
Ele desceu as escadas do balco, com passos leves, e debruou no brao da poltrona de Erin.
	Querida  disse , tudo isso foi demais para voc.
O toque gentil da ponta dos dedos contra seus cabelos, confortando-a como se confortava uma criana, acalmou-a e foi a gota d'gua. Ela suspirou e queixou-se, ilogicamente:
	Voc nem mesmo me deu um beijo de boa-noite.  Erin lembrou-se do roar dos lbios dele em sua testa, quando a mandou dormir:  No um beijo de verdade!
Em choque, as mos de Slater pararam de se mover nos cabelos dela. Mas, embora no lhe visse o rosto, Erin percebeu que ele sorria.
	E voc me queria?
	Naturalmente que no! Somente... no caso de voc me querer.
	Oh, eu queria. Posso lhe mostrar o quanto?  Seu sorriso desapareceu de sbito.
Sem esperar pela resposta, e bem devagar, ele segurou-lhe a nuca e inclinou a cabea para ficar mais perto.
A lua despontou mais uma vez no cu, iluminando o rosto de Erin um segundo antes de ela fechar os olhos oferecendo-se para o beijo que de incio foi como uma carcia. Comeou pelos lbios, passou para a testa, as faces, a orelha, e ia ficando cada vez mais urgente quando voltou  boca. A intensidade com que Erin retribua cada beijo aumentava a urgncia de Slater.
Enfim, ele levantou a cabea com a respirao to ofegante quanto a de Erin. Com os braos ainda em volta dela, foi soltando-a devagar.
	No quero parar  disse com sofreguido.
Com voz trmula e rouca, o rosto pressionado contra o peito dele, Erin disse:
	Mas no precisa parar  ela acrescentou.
Slater estava agora imvel, e Erin podia sentir as batidas do corao no trax rijo, contra seu rosto.
	Quero que voc sinta que est fazendo a coisa certa, Erin.
	Sim, eu sinto.
O "sim" soou tal qual  "sim" que ela pronunciara naquele mesmo dia, diante do juiz que os casou.
Slater sussurrou qualquer coisa e a beijou de novo. S naquele instante Erin se deu conta de como ele se contivera antes, pois esse beijo a deixou arfante, com necessidade de oxignio. E ele tambm ofegava.
Slater conduziu-a pela escada em espiral, beijando-a em cada degrau, e, atravs do estreito balco, at a porta que deixara aberta. Alm da porta estava o quarto, to grande que os cantos ficavam na sombra, apesar da luminosidade dourada fornecida pelas luzes de cabeceira. Mas Erin no tinha tempo nem energia para observar isso tudo, pois se encontrava nos braos dele de novo, num mundo onde nada existia alm dos dois e da necessidade imensa que pairava no ar, de satisfazer a fome dele, e a dela.

CAPITULO VIII

Muito mais tarde, Erin deitava-se ao lado dele, to relaxada que mal podia piscar; e observava-o a dormir.
As ltimas nuvens de chuva haviam se dissipado e a lua estava desimpedida. Mas, embora a luz prateada entrasse pelas altas janelas numa das extremidades do enorme quarto, brilhando contra o topo de uma mesa onde havia meio rolo de desenhos de engenharia, apenas uma tnue luz incidia sobre a grande cama.
Erin no precisava de mais. Estava quase imvel na cama, e olhava para Slater, examinando o arco das sobrancelhas dele, o modo como os longos clios se curvavam, as finas rugas no canto dos olhos.
Meu marido. Pronunciava mentalmente as palavras, saboreava o sentido no familiar das mesmas, e se surpreendia com a serenidade que experimentava. Estivera mais certa do que imaginara possvel, refletia, em sua convico de que eles poderiam ficar contentes com a sociedade que estavam construindo. S que era mais do que isso, poderiam ser felizes.
Erin encolheu-se perto dele, achando que fizera a melhor escolha de sua vida casando-se com o homem que amava...
De sbito, se convenceu.
Amava aquele homem.
 Que idiota havia sido at ento  sussurrou.
Racionalizara, justificara e defendera sua deciso para se casar com ele. Dissera a si mesma que era, qual a lista de qualificaes que Slater mencionara referindo-se a ela? Slida, sensata, prtica, quando a verdade era que no desejava mais do que ser esposa de Slater. Porque o amava.
No admirava ter ficado to ansiosa em se casar, com medo de que ele pudesse mudar de ideia. No admirava, quando Slater lhe propusera um noivado temporrio s para a paz de esprito de Angela, ela ter encontrado um meio de evitar essa soluo. No admirava, em vez de continuar preocupada com a possibilidade de Slater encontrar uma mulher que lhe mostrasse a magia do amor, ela acabar agarrando-o para si.
Mesmo naquele dia, quando tentara faz-lo prometer que, se encontrasse a mulher amada, lhe contaria, ficara aliviada por no receber uma resposta.
Erin honestamente acreditara que, na noite em que Slater a pedira em casamento e ela o rejeitara, no tinha interesse romntico por ele. Teria aquele pedido iniciado a fascinao que sentia agora, ou apenas alimentado a chama que j existia dentro de si? Bem dentro de si?
Mas no importava agora, supunha. Os resultados eram os mesmos. O pedido de casamento focalizara sua ateno nele, fizeram-na notar coisas que no vira antes. Coisas como bondade e generosidade, naturalmente, mas tambm a fora fsica e o modo como se movia, o esplendor do sorriso; e como era bom ficar junto dele.
Coisas pequenas, talvez, mas que juntadas formavam um pacote avantajado.
O toque final, naturalmente, era o controle de Slater. Erin no vira isso na ocasio, mas reconhecia agora. No se passara um dia, desde a noite do pedido, em que ela no se excitara ao pensar em como seria fazer amor com Slater. E o fato de que ele nem mesmo a beijara, de que no usara sua atrao fsica, menos ainda a fora, para atingir sua meta, a intrigava. Como era possvel que, sem nem mesmo a tocar, Slater lhe fora infinitamente sedutor?
Esse  um homem perigoso, ela pensou. E h muitas mulheres por a, no dbeis mentais como Cecile, mulheres que no olhariam apenas para a carteira, mas para um homem excitante, que intrigava, e muito sexy...
Poderia alguma dessas mulheres fazer Slater sentir a magia do amor que Erin lhe prometera que algum dia ele encontraria?
E se houvesse essa mulher... o que aconteceria com a magia que sentia por ele?
A magia muito frequentemente se transforma em melodrama, Slater dissera. E ele confessara que no procurava pelo amor por causa de seus desconfortveis efeitos colaterais; por isso propusera aquele tipo conveniente de casamento a Erin. Mas se, apesar de sua falta de interesse, o amor o dominasse? E se essa mulher especial o descobrisse?
Mas as dificuldades poderiam surgir em outros sentidos. E se sua esposa slida, sensata, prtica, se apaixonasse por ele e o fizesse sofrer todos os desagradveis efeitos colaterais que ele tentara tanto evitar?
Mas para Erin no havia, entretanto, o "se". Era tarde demais para voltar atrs.
No poderia mudar o que j acontecera. Portanto, teria de ser slida, sensata e prtica o suficiente para no demonstrar suas emoes. No cair no melodrama. No ficar observando cada mulher que conhecia e se perguntar se era aquela que Slater amaria. No demonstrar cime mesmo que seus artelhos ficassem verdes de cime.
A resposta era bvia. O problema era que, encontrar uma soluo seria muito mais fcil do que faz-la funcionar.
Erin percebeu, mesmo antes de abrir os olhos, que dormira mais do que habitualmente, porm ficou horrorizada quando, ao se sentar na cama e olhar para o relgio na mesa de cabeceira de Slater, constatou que passava muito das nove horas.
O apartamento estava estranhamente quieto, mas era claro que estaria silencioso; Slater disse que iria se encontrar com Bob Brannagan mais uma vez naquela manh, conseqiiente-mente, j devia ter sado havia uma hora no mnimo.
Em circunstncias diferentes, ela teria gostado da oportunidade de andar pelo apartamento, procurando se familiarizar com seu novo lar. Mas estava to atrasada que o tour pelo local teria de esperar.
De qualquer maneira, refletia, no havia muito a conhecer nessa ala onde se encontrava. O andar superior era ocupado pela sute principal, o enorme dormitrio, o luxuoso banheiro, e dois quartos de vestir. As janelas davam para o lado mais elegante de St. Louis, e havia duas entradas para essa parte do apartamento: a discreta escada num canto comunicava com o hall prximo aos quartos de hspedes, e a porta por onde eles dois entraram na vspera ficava perto da biblioteca.
Erin imaginava que Slater arranjara esses cmodos para sua mxima comodidade. Estando na biblioteca, por que haveria de ter de descer e percorrer o apartamento todo quando quisesse, por exemplo, ler na cama, tendo em vista que cortar caminho por uma porta era to fcil?
Eficiente, ela pensou. Prtico. Slido.
Ao se lembrar de sua resoluo precipitada da noite da vspera, Erin sentiu a garganta seca. Como poderia olhar para ele esta manh, e no permitir que o amor que sentira aparecesse nos olhos, no sorriso, no modo como o tocava?
Ajudaria um pouco, ela esperava, v-lo pela primeira vez no escritrio em vez de em casa. Contudo...
No banheiro de mrmore verde, Erin lanou um olhar para a banheira; mas preferiu um banho de chuveiro. Sentou-se depois na penteadeira para secar os cabelos. E no pde evitar pensar por que motivo aquele recanto to feminino fora inserido num banheiro masculino.
Isso  exatamente o que eu no devo fazer, pensava. Naturalmente houve outras mulheres na vida de Slater. Vira algumas, por sinal. Mas especular sobre o assunto no a levaria a parte alguma. Em lugar disso, devia se concentrar no fato de que ela seria a definitiva, a que passaria o resto da vida junto dele...
Ao lado do espelho estava um envelope com seu nome. Dentro havia uma chave, os cdigos do sistema de segurana do apartamento, e um recado. Ansiosa, Erin abriu a folha de papel.
Vou ao escritrio, Slater escrevera com sua caligrafia firme. Fique em casa o tempo que desejar, e d lembranas minhas a sua me. E a assinatura dele. Foi tudo.
O corao de Erin ficou to achatado como a folha de papel.
Para Angela, ele mandara lembranas. Para ela, nada... ex-ceto a permisso de chegar tarde ao trabalho.
O que ele realmente lhe oferecera na noite do pedido, Erin lembrou-se logo, fora um novo emprego, no um casamento. Uma secretria com contrato a longo prazo, o que na realidade ela era. Apesar da paixo estonteante da noite anterior...
Enfim, experimentara o que era a paixo. E ficara atnita. Acreditara que haviam dividido a emoo igualmente. Mas o que sentira Slater?
Ela tentava esquecer-se do ocorrido. Recupere-se, disse a si mesma. Voc aceitou os termos. Agora vai ter de viver com eles.
Sarah cumprimentou Erin com ndisfarvel alvio.
	Graas ao bom Deus voc est finalmente aqui. J telefonei para todos os lugares onde achei que poderia estar,  sua procura.
	Passei pelo hospital  explicou Erin  a fim de apanhar minha me. Porm ela j tinha ido para casa. Algo errado por aqui?
	O chefe j encarnou outra fera. Qualquer uma, que ele imitara antes, fugiria de medo se o encontrasse esta manh.
Estranho, Erin pensou. O recado que ele lhe escrevera poderia no ter sido um soneto de amor, mas fora corts, exa-tamente o que esperaria de Slater. Nada de feras, portanto.
	O lance dado por ns  Universal Conveyer parece estar criando problemas  informou Sarah.
	Que tipo de problemas?
	Ele acabou de saber que a MacDonald Associates nos derrubou com seu lance.
	Impossvel. Por que haveriam eles de querer o trabalho se no sabem como fazer dinheiro com isso?
	Bem, sinta-se  vontade e diga a Livingstone que ele deve ter entendido mal, ok? Espero que no se importe de eu no ir junto. Prefiro ficar aqui e me esconder embaixo da mesa quando a bomba explodir.
	Desculpe, Sarah, mas no acredito no que voc me disse.
Como a MacDonald sabia qual era nosso lance?
Na semana passada Slater estivera muito preocupado sobre o vazamento de uma informao secreta. Naquele caso os detalhes transpirados haviam sido errados e o prejuzo mnimo. Este caso agora era completamente diverso.
	E para piorar as coisas  disse Sarah , a secretria do senador telefonou.
- Por favor, diga-me que ele no vir nesta semana.
	Quinta-feira. J me informei sobre o bale, mas a srie de representaes termina esta noite. No sei como entret-lo, s sei que voc tem quarenta e oito horas para resolver. Oh, e a secretria disse que ele vai trazer a filha.
	E o que significa isso? Terei de arranjar uma bab?
	Claro que no. Ela tem vinte e cinco anos.
	Boa notcia. O pior  que Jessup est de frias. Mas darei um jeito.
	Bem, enquanto voc pensa, pode ficar aqui na minha sala por uns minutos? Preciso levar os desenhos de Brannagan  sala de cpias.
	O que houve com a mquina de seu escritrio? Com essa a atrs da escrivaninha?
	Aps copiar cada pgina, eu preciso reajustar a mquina. Serei feliz se o tcnico vier at o fim do ano. Nesse meio tempo, considerando-se que o chefe quer setenta e duas mil cpias, mais ou menos...
	Como?  Erin ergueu uma sobrancelha.
	Ok, ok, exagerei. Ele precisa s de quinze jogos. Mas, uma vez que est to preocupado esta manh sobre a possibilidade de escapar alguma informao confidencial...
	E tem boas razes para isso, eu diria  insistiu Erin.
	O que significa que devo ficar de olho para que no suma nenhuma cpia.
	V ento, eu no saio daqui  disse Erin.
Ela pensou em ficar sentada  escrivaninha de Sarah, pois, a menos que o departamento de cpias, que ficava dois andares abaixo, estivesse muito cheio de pedidos, o trabalho de Brannagan no levaria mais do que meia hora. Mas resolveu permanecer em sua prpria sala, deixando a porta aberta. Daquele ngulo no podia ver a mesa de Sarah, mas ouviria o barulho de qualquer pessoa que se aproximasse. De acordo com o calendrio de Sarah, a nica pessoa esperada por Slater naquela manh era um representante de fornecedores.
Alguns minutos mais tarde um rudo suave chamou a ateno de Erin. A pessoa que chegara era Cecile, e o rudo que Erin ouvira no fora dos passos do representante de fornecedores, mas dos papis da mesa de Sarah sendo espalhados por Cecile.
	Posso ajud-la a encontrar o que procura?  Erin disse, irritada.
	Vim aqui para falar com Slater  Cecile respondeu, nem um pouco embaraada.
	Duvido que o encontre embaixo da mesa de Sarah.
	Mas talvez ela tenha uma lixa de unha  Cecile disse suavemente, mostrando a mo de unhas escarlates.  Preciso desesperadamente de uma lixa. Antes que me esquea, Erin, acho que lhe devo cumprimentos. Ento, ouviu meu conselho e deu uma boa olhada na carteira dele, hein?
	Slater est muito ocupado hoje, Cecile. Duvido...
	... que ele tente usar de esforos para me incluir em seu calendrio? Bem, suponho que se eu puder falar com Slater, poderei facilitar sua vida, Erin, por ocasio da visita do senador. Ontem  noite, nem mesmo Slater sabia da visita, enquanto que eu, esta Cecile aqui, j sabia...
	No me esquecerei de voc quando preparar a lista dos convidados, Cecile. Mas satisfaa minha curiosidade dizendo o que h de to atraente no senador. 
	Oh, apenas  um homem interessante. E, quanto ao que disse que facilitarei sua vida, vamos pr as coisas desta maneira: se eu no receber um convite, farei de sua vida um inferno, Erin. Dormindo com Slater, quem melhor do que voc para saber dos lucros e perdas deste escritrio?
Apesar de seus esforos para ficar'indiferente, Erin corou. Ouvir falar de negcios fora a ltima coisa que passara pela cabea dela na ltima noite.
	Achou Slater assim to excitante?  Cecile sorriu.  Ou voc se satisfaz com pouco? Sorte sua, querida. Quem no espera muito nunca desaponta.
O que estaria Cecile na verdade procurando?, pensou Erin.
Com certeza a visita dela no tinha nada a ver com a festa do senador. A mulher no era idiota e imaginava que Slater no a convidaria para a recepo. E Erin tinha menos razo para desejar a mulher em sua casa. Mas a ameaa dela preocupava.
Ento, o que Cecile realmente queria?
Aps a sada de Cecile, Erin arrumou os papis espalhados pela mesa. Ela pegou um memorando da Universal Conveyer e colocou-o de volta na pasta. Que descuido de Sarah o ter deixado fora. Ou havia sido Cecile quem o pegara?
Erin apertou as plpebras enquanto se perguntava se os sistemas de controle da Universal Conveyer foram mencionados no jantar onde Cecile fizera as vezes de anfitri. Era perfeitamente possvel. Um dos engenheiros que trabalhara neles estava entre os convidados, ela lembrou-se logo. E um dos contadores tambm, porque estava envolvido no projeto de Bob Brannagan.
E se Cecile estivesse ouvindo...
Mas Erin sacudiu a cabea, descrente. Francamente, no podia pensar em Cecile prestando ateno num assunto que ela considerava cansativo.
Embora, Erin lembrava-se, agora preocupada, que ela mesma dissera a Cecile que as reunies sociais de Slater tinham de ser feitas em casa porque os temas das conversas eram sempre confidenciais.
Mas, mesmo assim, como saberia ela quem desejava comprar o projeto?
A menos, Erin refletiu, que algum da MacDonald Associates descobrira que Cecile estivera no jantar. E um operador esperto poderia descobrir atravs dela qual seria o lance...
Erin acabara de arrumar os papis e ia para seu escritrio quando ouviu passos. Algum parava  porta da sala de Sarah. Voltou e deparou com Dax em p junto  escrivaninha. Quando ele a viu, seus olhos chamejaram de surpresa.
No era de se admirar, Erin pensou. Descobrir que a mulher que ele cortejara havia se casado com o chefe devia ter sido uma desagradvel surpresa.
	Erin!  ele exclamou.  No esperava encontr-la aqui, com sua me to doente.
	Ela est bem. Que posso fazer para servi-lo, Dax? Quer os papis de propaganda, no ? Mas ainda no os tenho em mos.
	Sarah disse que providenciaria e os deixaria sobre a mesa dela.
	Posso ir apanh-los agora mas no acredito que o sr. Livingstone tenha tempo de olh-los. Tivemos uma manh muito ocupada.
	Aquela era a minha cpia  informou Dax.  Se ela puder tirar uma outra cpia para mim, virei busc-la esta tarde.
	Direi a Sarah que lhe mande a cpia.  Erin ficou ao lado da escrivaninha at Dax se retirar.
Poucos minutos mais tarde, Sarah reapareceu carregando enorme pacote de papis.
	So apenas quinze cpias?  Erin indagou.
	So. O projeto  enorme. Usarei o resto da manh organizando tudo isto para depois distribuir.
Era aquilo que Cecile esperava encontrar? Com certeza no.
	Sarah  perguntou Erin , Cecile tem andado por aqui ultimamente?
	No a vejo desde a noite do jantar. Quer pegar seu jogo de papis agora?  ela disse a Erin.
Erin aceitou a oferta mas, para ela, aquilo tudo era grego. Se no entendia nada do assunto, como poderia Cecile ter algum interesse em adquirir uma cpia para si?
Erin ia entrando em sua sala quando a porta do escritrio de Slater se abriu abruptamente.
Ela assustou-se quando o viu. Quantas vezes o vira trabalhando assim sem palet, com as mangas da camisa arregaadas, a expresso preocupada...
Mas aqueles eram outros tempos. Estava vendo seu chefe. No seu marido. No seu amante. No o homem que ela amava.
Vendo-o, sentiu mais uma vez a segurana e o conforto que experimentara na ltima noite quando ele a abraara. Reviveu por segundos o xtase de fazer amor com Slater. De sbito, enxergou a preocupao no rosto dele e voltou  realidade num salto, lembrando-se de que o trabalho sempre viria em primeiro lugar para Slater. Casara-se com ela em funo dos negcios...
	Erin  ele disse.  Entre aqui, por favor.
	Deixe-me antes apanhar meu caderno de apontamentos.
	No ser necessrio. Sarah lhe contou sobre o problema da Universal Conveyer.  No fora uma pergunta.
	Contou. Mal posso acreditar, mas... No h dvidas sobre a veracidade dos fatos?
	Quer saber se no h dvida de que perdemos o lance? Sim, no h dvida. Mas lutarei at o fim. Tomarei o prximo vo para Chicago a fim de conversar com o pessoal da Universal Conveyer.
	Ento no acredita que o negcio esteja perdido?
	Quero antes de tudo saber se eles sabem com que tipo de gente vo negociar. Nesse meio tempo o negcio ainda est em nossas mos. Por isso, o projeto de Brannagan ficou mais importante que antes. Enquanto eu estiver ausente...
Erin no estava entendendo muito bem o que se passava. Como podia Slater saber que o projeto de Brannagan estava salvo em suas mos at descobrir por que motivo a Universal Conveyer no estava? Era muito claro para Erin que as informaes haviam vazado, Slater tinha de se convencer que o preo mais conveniente do lance no fora um acidente. E isso queria dizer que poderia acontecer de novo.
Por que arriscaria Slater a ter uma repetio?
	O que deseja que faamos enquanto estiver ausente, senhor?
	Pensei que voc j tivesse se esquecido dessa mania do senhor, Erin.
	Desculpe  ela disse.  Escapou, mas  que voc estava sendo particularmente autoritrio.
Slater sorriu, o primeiro sinal de relaxamento que dera desde que Erin o vira no escritrio.
	Eu estava, no?  ele sussurrou.  Como encontrou sua me?
	Bastante bem. Soube que meu pai a levou para casa esta manh.
	Imagino o que a nova esposa estar pensando disso  Slater comentou.
	Eu tambm me pergunto. Mas descobri que meu pai usava sua antiga aliana. Conheci pelo formato e percebi que no era nova. Mame deu-me a dela. Ser que vai me pedir de volta? E isso tudo me fez pensar numa coisa. Nunca lhe perguntei se voc gostaria de usar uma aliana.
	Voc tinha coisas mais importantes em mente, Erin. E usar ou no usar aliana no  importante num casamento.
Claro que no, Erin pensou com um trao de cepticismo. O importante mesmo era ter uma esposa para ser a anfitri de suas festas. E para isso no  necessrio uma aliana.
Slater olhou o relgio.
	Preciso ir  disse.  Ele comeou a desenrolar as mangas da camisa.  Onde esto minhas abotoaduras?
	Voc estar de volta por ocasio da visita do senador?  Erin levantou-se.
	Espero que sim.  Ele encontrou as abotoaduras numa pequena bandeja em cima da escrivaninha. Vestiu o palet.
Com as mos nos quadris, parou para examinar Erin da cabea aos ps.  O que voc far se eu no lhe der um beijo de despedida?
Eu lhe darei um pontap, ela pensou. Berrarei. Me desesperarei. Mas a resposta foi:
	Quer mesmo descobrir?
	No.  Slater sorriu. Bem  vontade, segurou-a muito perto de si e beijou-a calmamente. E, j saindo, disse:  Sinto, mas no dormirei em casa esta noite.  E se foi, no dando chance a ela de responder.
Erin no teve vontade de encarar Sarah. Sentou-se  mesa de Slater examinando a lista de instrues dadas por ele sobre o caso Brannagan. Estava absorvida em seu trabalho quando ouviu vozes no escritrio ao lado. Slater deixara a porta semi-aberta.
	No posso lhe mostrar coisas desse tipo  Sarah dizia.  V pelos canais competentes.
Uma voz de homem, bem controlada, respondeu:
	Diro que propaganda no tem necessidade de saber o que irei pedir.
Propaganda, pensou Erin. No admirava a voz lhe ter soado familiar. Dax Porter voltara. Agora ela ficou contente por estar no escritrio de Slater em vez de no dela. Dax no a procuraria l.
	E eles tm razo, naturalmente." A secretria parecia preocupada.  E por que est to interessado? No temos de vender a ideia ao pblico.
	Quer parar de se fingir de sonsa? Sabe o que est acontecendo, tanto quanto eu. Olhe, Sarah, no tenho tempo para brincadeiras.
Erin arregalou os olhos, e Dax prosseguiu:
	No tenho tempo a perder. Quero os desenhos que vo controlar os novos satlites de Bob Brannagan. E quero-os j.
	Para vend-los a Fritz MacDonald, no ?  A voz de Sarah era mordaz.
	Ou para quem pagar mais. E voc vai conseguir isso para mim, ou contarei ao chefe o que est acontecendo com as negociaes da Universal Conveyer.
Erin fechou os olhos, sofrendo muito. O choque foi que ela no se surpreendia ao saber que Dax Porter era o traidor, a fonte por onde vazaram as informaes. Tinha j algumas dvidas sobre Dax, desde que Tnio lhe contara do roubo da flor. Porque, um homem que rouba uma simples rosa em vez de pag-la, provavelmente pratica outros atos nada nobres.
O que a reduzia a frangalhos era o fato de essa fonte ter sido Sarah. No Cecile, mas Sarah.
Sarah, que havia sido a secretria confidencial de Slater por anos, muito antes de Erin entrar na firma. Sarah, que cuidava dele, que lhe preparava o caf, que o apelidara de dinossauro... e que agora o traa revelando informaes confidenciais. E parecia nem estar vendendo essas informaes, mas dando-as a seu namorado, a Dax. E isso era o que mais magoava Erin.
	Olhe  Sarah respondeu impaciente , no h nada que eu possa fazer para obter esses desenhos.
	J teve suas mos neles.
	E passei-os adiante.
	Bem, mas trate de encontrar um meio de conseguir o que estou lhe pedindo.
	Ou voc contar tudo ao sr. Livingstone? Se me jogar s feras, estar admitindo seu prprio roubo.
	Pode ter certeza de que no farei isso na frente de testemunhas. Ou no ocorreu a voc que basta eu insinuar o fato para desmascar-la? E faz-la perder seu emprego?
Era absolutamente certo, Erin sabia. Uma vez sob suspeita, a secretria confidencial estaria perdida. Pensando bem, Sarah merecia isso. Mas...
	De qualquer maneira  Dax continuou , tenho outros planos para me manter, alm da propaganda. Minha carta de demisso j est pronta. Posso lev-la ao sr. Livingstone dizendo que estou saindo da firma por minha conscincia no me permitir ser conduzido por voc na venda de informaes.
Ou talvez... se Fritz MacDonald consentir em deixar escapar que voc foi a fonte das informaes... Ele e Livingstone jogam juntos no clube de vez em quando, voc sabe, no?
De fato, Erin nunca pde entender, considerando-se a rivalidade das firmas, porque os dois homens praticavam esporte juntos. Mas isso no vinha ao caso agora; a questo era que, se Fritz MacDonald levantasse um dedo, fazendo parecer acidental...
	Ento, o que acontecer, Sarah?  Dax acrescentou. Ele ia perdendo a pacincia.  Pare de incertezas. Preciso de detalhes sobre esses desenhos. Vai conseguir ou contarei tudo a Livingstone?
Erin prendeu a respirao.
	Vou conseguir.  A voz de Sarah parecia vir de grande distncia.  Mas levar um pouco de tempo.
	Eu lhe darei quarenta e oito horas, apenas isso. Sabe onde me encontrar quando estiver com tudo nas mos.
Erin percebeu quando ele se retirou. O silncio foi absoluto e ela pensou que nunca mais se levantaria daquela cadeira. Mas, enfim, foi  sala de Sarah.
Ela estava sentada  escrivaninha com os cotovelos apoiados na mesa, as mos cobrindo o rosto. Quando Erin entrou, Sarah ergueu o rosto.
	Acho  disse Erin  que  melhor voc vir a minha sala, Sarah. Temos de conversar.

CAPTULO IX

Bem lentamente, Sarah levantou-se. Andava como uma autmata, ou um soldadinho de chumbo enferrujado. Seguiu Erin ao escritrio de Slater e ficou diante da escrivaninha, sem aceitar a cadeira que lhe fora oferecida. Lambia os lbios e piscava devagar, como algum que apenas acordara de um sonho mau e que ainda no tinha certeza se estava acordada ou no, ou se desejava acordar. Erin sentou-se e esperou. Enfim Sarah falou:
	Eu no sabia que voc estava a.
	Pude perceber.
	Tive de correr at o departamento de cpias por um minuto apenas e, quando voltei, seu escritrio estava vazio e o sr. Livingstone acabava de sair. Pensei que voc tivesse ido almoar. Mas nada disso importa, no  mesmo, Erin? Oh, minha amiga, o que hei de fazer agora?
	Eu diria que isso depende do que voc j fez. Esteve bastante ocupada, no?
	No pensa que fiz tudo de caso pensado, no?  Sarah arregalou os olhos.
	O que mais eu deveria pensar? Admitiu ter dado a Dax as informaes da Universal Conveyer, e prometeu dar a ele os desenhos de Brannagan...
	Tinha de ganhar tempo para pensar no que fazer. No acredita em mim, no  mesmo? Erin, eu preciso deste emprego, tenho um filho para sustentar. No acha que sou to idiota a ponto de arriscar isso. Acha?
Erin no respondeu. Mas a dvida fervia em seu crebro.
Ela notara, mesmo em choque, que Sarah no parecia estar tirando proveito da informao que Dax iria vender. Ento, por que fizera aquilo? Apenas pelo prazer de ter Dax Porter cortejando-a? Considerando-se o risco que corria, no fazia sentido.
	Bem, reconheo que sou uma idiota  Sarah falava com desprezo de si mesma.  Voc deve se lembrar da infinidade de vezes que Dax entrou no escritrio enquanto trabalhvamos naquele lance? E das perguntas ingnuas que ele fazia? Mal posso me lembrar do que eu respondia, mas lhe garanto que foram migalhas. Nunca pensei em nada de grave no fato, pois imaginei que ele estivesse de nosso lado!
Era possvel, pensou Erin. Talvez ela dissesse a verdade. Alimentara-o pouco a pouco, e Dax manobrara a mente de Sarah sem que ela se desse conta disso.
Num caso desses, contudo, inocncia no  defesa. Secretrias pessoais devem ser confiveis como advogados, ou confessores. No devem falar sem pensar, no importa em que circunstncias. No podem revelar segredos. Portanto, se Sarah falara demais, mesmo sem intenes maldosas, ainda era responsvel. Tinha, talvez ingenuamente, tratado seu chefe com desrespeito e seu trabalho sem responsabilidade. Teria agora de enfrentar as consequncias.
Erin respirou fundo.
	Preciso contar a Slater, naturalmente  disse.
	Contar o qu? No roubei informao nenhuma. O que aconteceu comigo poderia ter acontecido com qualquer pessoa. Voc, por exemplo, tem certeza de que no deixou escapar nada? Dax passou tanto tempo falando com voc como comigo.
Erin sentiu a acusao explodir em sua cabea. Ser que ela tambm cara na armadilha de Dax? Somente agora Erin lembrou-se de ele lhe ter perguntado, durante o almoo, sobre Bob Brannagan e sobre os negcios dele com Slater. Naturalmente, no indagara nada muito diretamente; e ela no notara, na ocasio, que ele fazia algo mais do que entreter uma conversa casual.
Mas, o que fizera ela? Trara seu marido? Dissera alguma coisa que no devia?
Se tivesse feito, seus atos seriam bem piores do que os de Sarah. Se uma secretria tinha obrigao de guardar segredo, uma esposa devia ser como um tmulo.
Ela rangeu os dentes e tentou se recordar das conversas que tivera com Dax Porter. Pelo que podia se lembrar, no deixara escapar nem uma gota de Informao. Porm, teria absoluta certeza? Dax era diablico; no apenas se insinuara na vida de Sarah, como manobrara no sentido de conserv-la no escuro enquanto namorava todas as mulheres que caam em sua rede.
Erin olhou para Sarah, agora com muito mais pena, considerando-se como estivera, ela prpria, to perto do desastre.
Mas, mesmo assim, no havia desculpa. O mal feito por Sarah fora imenso. Poderia ela confiar em Sarah de novo? E Slater, poderia? Menos ainda, com certeza.
	Voc disse a Dax que providenciaria os desenhos  observou Erin.
	Disse, mas no pretendia fazer isso. Quis apenas ganhar tempo, conforme j disse.
	Por qu? Para decidir o que fazer?
	Meu emprego. Eu preciso de meu emprego.
	No sei se poder conserv-lo, Sarah.  Erin sentiu-se brutal, mas sabia que a honestidade era o nico meio de lidar com o caso agora. No seria certo dar a Sarah falsas esperanas.
 Terei de contar tudo a Slater.
Olhando diretamente para Erin, Sarah respirou fundo e endireitou os ombros.
 Deixe-me ao menos explicar a ele o que aconteceu.  Sarah pediu.
	A confisso ser boa para sua alma?
	Acho que sim. Prefiro contar eu mesma.
	Ele pensar que voc sabia que a verdade viria  tona, por isso tenta agora diminuir a culpa expondo a melhor face de suas aes.
	 a nica chance que tenho, Erin. Se eu puder explicar-lhe o que aconteceu, faz-lo acreditar que no fiz aquilo com deliberao...
Erin no achava que faria grande diferena, mas Sarah tinha razo numa coisa, sua nica chance com Slater seria apresentar-lhe uma explicao completa, aberta, honesta. Ento, Slater poderia permitir que ela continuasse trabalhando na firma, embora no em posio de tanta responsabilidade. Do contrrio, Sarah no ficaria apenas desempregada, como sem carta de recomendao para conseguir outro emprego.
	E quanto mais depressa, melhor  Sarah continuou com palavras firmes, mas voz trmula.  To logo o sr. Livingstone volte do almoo...
	Ele no foi almoar. Foi a Chicago tentar salvar alguma coisa do contrato da Universal Conveyer. Ele no lhe contou?
	Eu o vi brevemente atravessando o hall quando voltei do departamento de cpias. Quando o chefe chegar de Chicago?
	No sei. Disse que procuraria estar aqui para a visita do senador.
	Mas isso ser quinta-feira  noite, horas aps a data determinada por Dax. E Dax poder estar esperando pelo sr. Livingstone no aeroporto.
	Talvez um telefonema...  Erin arriscou. Mas uma discusso face-a-face com Slater seria a nica esperana de Sarah. Ademais, Erin nem sabia onde o marido estava hospedado.
	Preciso segurar Dax nesse meio tempo  observou Sarah.
	No sei atravs de quem mais ele poder obter o que deseja. No meio de minha conversa com Dax, entendi que eu no era sua nica fonte de informaes.
	Acha que ele pode obter os desenhos por intermdio de outra pessoa?
	E por que no? Erin, h quinze jogos dos desenhos rodando por este edifcio. Penso que Dax preferiu obter as informaes atravs de mim para no precisar pagar pelo trabalho. Mas, e os outros? Se ele oferecer dinheiro...
	Aqueles desenhos devem valer milhes de dlares para Fritz MacDonald.
	Se eu for a causa de tanta desgraa  Sarah comentou juro que vou me suicidar.
	No, no vai.
	Alegra-me ver que voc tem tanta certeza de que no haver tanta desgraa.
	No haver desgraa, porque vamos impedir que Dax consiga o que deseja.
	Como, exatamente, voc chegou a essa concluso? Mesmo recolhendo os quinze jogos dos desenhos, sabemos que j foram recopiados.
Erin sacudiu a cabea.
 Daremos a Dax o que ele pediu.  Ela sorriu.  Daremos a Dax os desenhos de Brannagan.
No os verdadeiros desenhos, naturalmente, mas um fac-smile bastante perfeito.
As alteraes seriam bem simples de ser realizadas. Os planos de Brannagan eram no apenas complexos como tambm muito longe de estar em ordem. Vrios desenhistas hbeis trabalharam arrumando-os, alguns usando computadores, outros adicionando dados e correes manuais. E nenhum se preocupara com a aparncia, pois no houvera tempo. Portanto seria fcil se acrescentar uma linha aqui, e tirar uma em outro lugar, sem deixar a impresso de que os desenhos haviam sido adulterados, e por quem.
Mas saber o que mudar, o que desenhar a mais, o que apagar, seria uma questo diferente. Erin no era engenheira, tampouco Sarah. E como saberia Erin que mudara o bastante? Exatamente que alteraes adulterariam mais os desenhos?
Por outro lado, Erin admitia, sua experincia, por mais limitada que fosse, por certo era mais extensa do que a de Dax. Ela trabalhava com coisas desse tipo durante um ano, e Dax, com muita probabilidade, nunca vira um jogo de desenhos daquele porte. Portanto, ele venderia os desenhos como reais, e no teria razo para procurar por outros.
Ento, com Sarah andando de um lado para o outro, Erin apagou algumas linhas, alterou vrias equaes aqui e ali, colocou uma seta na direo oposta, e borrou as conexes de um fusvel. Em vez de usar o departamento de cpias da firma, Sarah levou os planos adulterados a uma copiadora do bairro e fez um jogo para Dax.
Erin ficou muito satisfeita com o resultado. Com sorte, ela pensou, o pessoal de Fritz MacDonald no desconfiaria de nada. Ao ser descoberto o engano, lamentariam o fato sem escndalo para no admitir que haviam sido ludibriados.
Com sorte, Sarah poderia confessar e talvez conservar seu emprego, pois salvara, afinal, o projeto de Brannagan.
E com sorte, Slater jamais saberia que Erin pusera as mos no problema.
Erin acabava de arrumar as flores no centro da mesa para o jantar do senador, quando Jessup entrou a fim de lembr-la da hora.
	O sr. Livingstone ainda no chegou?  ela perguntou, j sabendo da resposta. Se tivesse chegado, teria ouvido, e Slater ao menos viria dizer-lhe "al".
	Com certeza ficou preso no trfego  disse Jessup.  Daqui a alguns minutos as visitas chegaro, sra. Livingstone.
	Eu sei. Apenas espero...  Erin colocou o ltimo antrio vermelho no vaso e deu um passo atrs para admirar o resultado. O vaso de prata sobre a bandeja tambm de prata consistiram em tima escolha; o reflexo das flores na superfcie brilhante tornaram o arranjo excepcional.
Enquanto ela subia as escadas na direo da sute principal, lembrou-se do ltimo jantar em que Jessup a mandara para o quarto de hspedes a fim de se arrumar, por causa de Cecile, talvez. Como as coisas eram diferentes agora. E, contudo, como estavam iguais.
Erin enfiava pela cabea o mesmo vestido do casamento quando Slater entrou no quarto.
Seu corao deu um salto. Ele parecia cansado, como se a viagem no tivesse sido um sucesso. Mas, apesar da exausto expressa no rosto, era ainda o homem mais atraente que ela conhecera.
No disse "al", apenas abraou-a por detrs do espelho e beijou-lhe a nuca. Depois falou:
	Eu comentei que gostava desse vestido, mas isso no significa que deva us-lo sempre.
	No tive tempo de fazer compras  Erin explicou.
Slater puxou o zper do vestido.
	Imagine se voc derrubar vinho tinto ou coisa parecida, inutilizando-o para sempre? Logo ter de p-lo de lado.
	E o que voc queria? Guard-lo para a posteridade? Pensamesmo que alguma das sobrinhas de sua tia Hermione gostaria de se casar usando-o?
	E por que no? Se foi bastante bom para a me delas...  Slater fez Erin se virar para fit-la de frente.
Ela relutava encar-lo, por medo de que Slater pudesse ver em seu olhar algo que no queria que ele visse. Amanh, pensou. Assim que Slater for ao escritrio, Sarah confessar... e ento no estarei mais guardando segredos de meu marido.
O interfone tocou e ela disse depressa:
	 Jessup. O porteiro deve ter lhe avisado que os primeiros convidados chegaram e que esto subindo.
	 melhor ento que voc v receb-los  declarou Slater com toda a calma.  Eu descerei assim que puder.
	Ao menos tome um chuveiro quente a fim de relaxar. Mais tarde nos reuniremos no salo para o coquetel, e o senador chegar daqui a duas horas. Portanto no importa se voc chegar um pouco...
	Coquetel?
	Sim, no salo. No lhe falei sobre isso? O senador insiste em conhecer todo o pessoal do escritrio para que ele possa...
	Estamos em ano de eleies?
	No  sempre ano de eleies? Como ele pretende ficar aqui apenas uma noite, achei interessante juntar tudo no mesmo dia.
	 de fato bem mais fcil do que ter um jantar aqui cada semana e esperar que todos se retirem logo.  Slater piscou, maliciosamente.
	Certamente . Enfim, no precisa se apressar, eu cuidarei de tudo.
	Sei que voc cuidar.
Claro que ele sabe, Erin pensou. Tinha f nas habilidades dela, ou nunca a teria feito sua esposa. A perfeita esposa de membro de uma corporativa.
Slater sumiu no banheiro e Erin desceu as escadas. Excluindo-se o ato de puxar o zper, ele no a tocara.
O senador tinha cabelos grisalhos, rosto vermelho, era cordial, enfim, o tipo perfeito de um poltico. Cumprimentou Erin como se fossem velhos amigos, e apresentou-lhe a filha.
	Acabou sendo uma boa coisa termos de adiar minha visita, pois assim Katrina pde vir comigo  ele disse.  Ela trabalha com crianas desajustadas que precisam muito de sua assistncia, por isso raramente tem dias livres.
	Papai  disse Katrina , pare de me fazer parecer uma santa, ok? Ningum acredita em voc, de qualquer maneira.
Katrina era muito simptica, alegre, loura com pele imaculada e tinha enormes olhos castanhos. Acima de tudo, irradiava um calor humano difcil de resistir. O pai fizera um bom trabalho nela, conseguira timo resultado. Se fosse assim como poltico...
De sbito, Katrina olhou para a porta com inconfundvel interesse no olhar.
Erin adivinhou logo o que despertara tanto interesse na moa. Slater entrava no salo. Ele ficou ao lado da cadeira de Erin, uma das mos no ombro dela. Orgulhosa do marido que tinha, ela preparou-se para fazer as apresentaes. Fascinado, Slater olhou para Katrina. Erin assustou-se, pois o marido nunca a fitara daquele jeito...
Entrou em pnico.
Algum dia voc encontrar uma mulher pela qual se apaixonar, dissera a Slater na noite em que ele a pedira em casamento. Mas, no fundo, no acreditava que aquilo aconteceria. Ou melhor, tivera esperana de que ela era essa mulher. Por isso, afastara de sua mente tal predio e casara-se com Slater, confiante de que um dia as coisas se normalizariam.
Porm, naquele instante, no se sentia bem.
Toda a lgica que criara no lhe parecia boa agora. Uma coisa era se preparar para no ter cime, mas outra era se ver sob a ao desse sentimento. E outFa coisa ainda pior era se perguntar se aquela mulher era a tal.
Slater parecia ter batido com a cabea num poste, to estonteado estava.
Erin concentrou-se na respirao, e tentou sorrir enquanto fazia as apresentaes. E ento, para que no lhe fosse to penoso observar o marido pegar na mo de Katrina com tanto cuidado como se fosse de cristal, ela virou-se para o senador e lhe perguntou sobre as atividades do Pentgono, que atrasaram a viagem na semana passada.
Alguns minutos mais tarde ela colocou seu copo sobre a mesa e disse:
 Acho que est na hora de irmos ao salo para o coquetel.
O senador tambm colocou seu copo sobre a mesa, mas tanto Slater como Katrina pareciam nem ter ouvido o que ela anunciara.
O senador riu e disse a Erin:
Isso acontece o tempo todo. As pessoas ficam to envolvidas com Katrina que se esquecem de tudo o mais.
As pessoas em questo, Erin refletiu, deviam ser as do sexo masculino.
	No quero me gabar  ele continuou  mas minha filhinha...
Est seduzindo meu marido, Erin quis dizer. E merecia umas boas palmadas por isso. Mas mordeu a lngua dizendo a si mesma que no era esse o jeito de lidar com o cime.
Do salo, o grupo dirigiu-se ao local do banquete. Erin deu o brao ao senador e conduziu-o no meio da multido, apresentando-o aos funcionrios mais importantes da firma.
Seus olhos pararam em Katrina justamente quando a jovem mulher estendia o brao para pegar o copo de bebida que Slater fora buscar para ela. Erin viu-o sorrir com um calor que fez seu corao pulsar mais forte.
Ali bem perto, Dax Porter observava tudo. Erin no se surpreendeu ao v-lo; embora achasse que uma pessoa precisava de incrvel descaramento para aparecer numa festa da Companhia quando roubava o chefe da mesma.
	Interessante  ele murmurou ao ouvido de Erin.  Voc lutou tanto para conseguir o homem, e agora, antes de ter tido chance de relaxar e usufruir seu triunfo, ele encontrou outros interesses. Pobre Erin. Talvez no devesse ter olhado to alto.
E ter agarrado voc, por exemplo, Dax? Erin esforou-se para no lhe dizer que preferia morrer a entregar-se a um traidor, mentiroso e trapaceiro. Mas a ltima coisa que faria agora era deixar que Dax suspeitasse ter havido uma falsificao dos desenhos. No dia seguinte, tudo estaria terminado, mas naquela noite ela teria de sorrir e trat-lo como sempre, sem ironia.
	Obrigada por dar sua opinio, Dax  Erin lhe disse com amabilidade, e foi para o bar.
Sarah estava num canto da sala, observando a multido. Era a primeira vez que Erin a via depois da entrega dos planos adulterados, e lhe perguntou:
	Tudo bem?
	Dax foi horrvel. Arrogante, pomposo e condescendente. At teve a coragem de me agradecer, com um sorriso irnico nos lbios, claro.
	Bem, a boa notcia foi que ele engoliu a isca.
	Sim. Voc acha, Erin, que eu poderia falar com o sr. Livingstone esta noite?
Tir-lo do lado de Katrina?, pensou Erin. Impossvel!
	Acho melhor esperar at amanh. H menos distraes no escritrio.
	Entendo. Eu apenas queria terminar com isso  declarou Sarah.
	Somos duas.
Erin havia notado que Katrina e Slater conversavam animadamente num canto. Mas, no instante em que ela viu que o marido ficara sozinho, correu para perto1 dele e perguntou, no tom de voz mais suave que conseguiu:
	Espero que voc e o senador tenham encontrado tempo para trocar algumas palavras.
	Oh, cuidaremos dos detalhes depois que a festa terminar. Katrina  uma graa, no acha, Erin?
O pior de tudo aquilo, Erin admitiu, era que ela no podia nem mesmo, honestamente, discordar.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Slater acrescentou:
	Uma linda festa, Erin.
Aos ouvidos dela o elogio soou frio demais, um cumprimento que pouco significava. Nada do entusiasmo que ele demonstrara minutos atrs, falando de Katrina. Ento, Katrina era uma graa, no era? E sua mulher? Apenas slida, sensvel e... prtica.
	Naturalmente que  uma linda festa.  meu trabalho cuidar disso, no ?
E, sem esperar por uma reao, Erin afastou-se dele, quase cegamente, na direo do primeiro grupo de convidados.
A festa enfim chegava ao fim. Mas, mesmo ento, Slater parecia no querer v-la terminar. Resolvera levar o  senador e a filha at a rua, e esperar pelo txi.
No decorrer da noite, o nervosismo de Erin piorara, fazendo-a ter vontade de gritar. Ela disse a Jessup que a limpeza da casa poderia esperar, e deu-lhe as costas indo para a sute.
Deixou o vestido jogado no cho e sentou-se para escovar os cabelos, tentando controlar-se. Em alguns minutos Slater apareceria  porta e ela teria de se comportar como a esposa de membro de uma corporativa. Teria de sorrir, de abra-lo, de lhe fazer uma massagem nas costas...
No poderia deixar escapar nada do assunto que o aguardaria no dia seguinte, no escritrio. No poderia ser sarcstica sobre Katrina. E, se Slater quisesse fazer amor com ela naquela noite, no poderia se perguntar se o marido pensava na encantadora filha do senador.
E no se perguntar isso, ela sabia, seria impossvel.
Erin apagou a luz e, quando Slater entrou, ela estava deitada de lado, respirando o mais suavemente que podia.
Slater ficou parado por alguns segundos, fechou a porta sem rudo, despiu-se na escurido e deitou-se. Suspirou, eriou os cabelos dela gentilmente e acomodou-se no travesseiro.
Erin apertou as mos. Slater a afagara na cabea como faria a um cachorro, refletiu. A um cachorro que obedecera suas ordens.
Boa Erin, voc executou aquela proeza com perfeio. Agora sente-se e fique assim, at eu precisar de voc de novo...
E ela obedeceria. Ficaria l, executaria o melhor que pudesse cada proeza que Slater lhe pedisse, porque o amava.
E se algum dia, talvez muito em breve, ele no a quisesse mais...
Uma lgrima silenciosa rolou pelo rosto dela e se escondeu no travesseiro.
Erin foi a primeira a chegar no escritrio na manh seguinte. Esperava que Sarah estivesse l, aguardando-a. Teria Sarah chegado e se retirado? Desistira de persuadir Slater achando que no haveria chance de perdo e decidindo ser intil se humilhar suplicando pelo emprego?
Mas alguns minutos mais tarde Sarah aparecia. Estava plida, os olhos fundos.
	O sr. Livingstone j chegou?  Ela quis saber.
Erin sacudiu a cabea.
	Slater j tinha sado quando eu acordei. Mas me deixou um bilhete dizendo que ia ao ginsio de esportes e que chegaria mais tarde ao escritrio.
Sarah no disse nada, porm Erin sabia perfeitamente como a pobre mulher se sentia, metade aliviada, metade desapontada. A mesma mistura de sentimentos que Erin experimentara ao acordar pela manh e ao se ver sozinha na cama. Desaponto ao encontrar apenas um recado sobre a penteadeira, frio como o recado que encontrara na manh aps seu casamento, para lembr-la de que tinha um marido. E tambm sentira-se aliviada por no ter de encar-lo com um sorriso nos lbios depois da festa que fora um sucesso. Mas no para ela.
	Meia hora mais cedo, meia hora mais tarde, no far muita diferena  Erin comentou.
	Eu sei. S que eu queria me ver livre disso logo.
	Que tal um caf? Far voc se sentir melhor, Sarah.
	Talvez. Se bem que nem arsnico far com que eu me sinta melhor. Encar-lo depois do que eu fiz...
Erin foi para a prpria sala e, alguns minutos mais tarde, ambas ouviram passos. Passos firmes, decididos, definitivamente de homem.
E de homem furioso. Slater havia ido ao ginsio de esportes onde jogava com Fritz MacDonald de vez em quando. Mas talvez naquela manh fora  procura de Fritz em funo do negcio.
Se Slater comeasse a gritar, Erin pensou, ela iria em defesa de Sarah. E contaria que o que fizeram tinha sido para tentar transformar uma horrvel situao em algo mais fcil de ser contornado.
Mas no foi a voz de Slater que ela ouviu logo depois, e sim a de Dax.
	Maldita seja voc, Sarah  ele dizia.  No funcionou!
Erin ficou parada na porta do escritrio, mas Dax no a viu. Toda sua ateno estava focalizada em Sarah. Ele sacudia junto ao rosto dela os desenhos de Brannagan, que lhe foram dados na vspera.
	Voc no devia ter vindo aqui  disse Sarah com voz trmula.
	Como uma mulher pode ser to idiota assim? No percebeu a falsificao, Sarah? A coisa no funcionou.
Erin deu um passo  frente.
	No grite, Dax. Todo o prdio pode ouvir seus berros e temos seguranas que o prendero em dois minutos.
	E voc fique fora disso, srta. Pureza! Ningum pediu sua colaborao. Eu devia ter adivinhado que a preciosa Sarah no faria nada sem sua aprovao. O que voc desejava, Erin?
Poder? Ou talvez uma parte do dinheiro?  Dax berrou.  Bem, no ganhar nada, porque o maldito plano no funcionou.
Nenhum deles percebeu quando Slater chegou. Erin nem mesmo soube que ele estava l at ouvir-lhe a voz firme, calma, ao declarar:
	Naturalmente que no funcionou, Dax. Ou realmente pensou que iramos lhe dar os desenhos genunos? Pensou, Dax?
CAPITULO X

Slater no precisou de uma explicao sobre o que acontecia em seu escritrio; mesmo Dax no tendo sido claro, Slater fora ao mago do assunto. No havia surpresa em sua voz, apenas um tipo de tristeza. Obviamente, ele no apenas sabia que os planos de Brannagan estiveram em mos erradas, como sabia com exatido quem os pusera l...
E ele vai achar que estou enterrada nisso at o pescoo, Erin pensou. O que, sem dvida, ela estava. Sua tentativa de mitigar estragos saram mal.
Erin olhou para Sarah que parecia terrivelmente confusa. E virou a cabea exatamente quando dois seguranas uniformizados apareceram.
Estamos perdidas, ela admitiu.
Slater deu um passo na direo de Dax.
 Bem  disse , voc no  to ingnuo assim a ponto de imaginar que Erin e Sarah lhe dariam os verdadeiros desenhos.
Erin respirou aliviada. Tudo vai acabar bem, disse a si mesma. Slater devia ter percebido que o jogo de desenhos de Dax fora sabotado.
S que... Slater no poderia saber.
Ele poderia suspeitar o que ela fizera, mas no podia ter certeza. No havia evidncia, ela cuidara para que no houvesse.
Mesmo que Slater virasse o escritrio de pernas para o ar, algo que ele no tivera oportunidade de fazer aps sua volta de Chicago, no encontraria nada a no ser o verdadeiro jogo de planos.
As cpias onde foram feitas as alteraes tinham sido destrudas e o conjunto que Dax sacudia no ar no ficara longe da vista de Erin, ou de Sarah, do momento em que fora copiado na loja at Sarah entreg-lo a Dax, na vspera.
Portanto, se Slater no tinha certeza do que elas haviam feito, simplesmente blefara ao dizer a Dax que os desenhos no eram os autnticos?
Mas Erin no pensava assim; o tom de autoridade da voz dele, bastante seguro, no parecia estar afirmando uma falsidade. No, Slater simplesmente falava a verdade.
Que os planos de Dax no haviam funcionado, no existia a menor dvida. Mas talvez o fracasso no fora consequncia das mudanas que ela fizera... mas por algo mais.
Erin ainda refletia sobre todas as possibilidades quando Slater confirmou sua dvida.
	O que voc tem a, Dax, so os rascunhos dos desenhos que no foram aproveitados nas cpias finais. Foram executadas inovaes importantes. E, naturalmente, antes de eu liberar as cpias, ainda providenciei para que houvesse algumas pequenas correes.
Por isso os desenhos pareciam inacabados, quase uns rabiscos, Erin concluiu. Eram apenas preliminares. Em resumo, os desenhos que caram nas mos dela e de Sarah eram falsos.
No admirava, portanto, os engenheiros de Fritz MacDonald no os aprovarem; haviam sido sabotados muito antes de Erin ter movimentado os traos, trocado nmeros.
Slater no contara a Erin o que pretendera fazer. Apesar de ser a mo direita do marido no trabalho, secretria executiva, Slater no confiara nela o suficiente para lhe contar o que se passava.
Por isso no parecera ansioso em descobrir como vazaram as informaes, mesmo depois do desastre. Simplesmente no quisera contar a Erin que, a seu modo, ele testara a honestidade do pessoal da firma, deixando que os desenhos com informaes falsas percorressem livremente as salas; e esperando para ver o resultado.
Slater chamou os homens da segurana.
	Dax Porter  ele disse , esses cavalheiros vo lev-lo at a porta de sada do prdio. Seu ltimo salrio e objetos pessoais lhe sero enviados. No ponha os ps neste escritrio nunca mais.
A reao de Dax chocou Erin.
Slater afastou-se para dar espao aos seguranas e, aproveitando-se da distrao do momento, Dax ergueu o brao a fim de dar um soco no rosto de seu chefe. Pelo visto, Slater esperava por qualquer coisa desse tipo, pois agarrou a mo de Dax ainda no ar e torceu-lhe o pulso. Os papis voaram, espalhando-se pelo tapete.
Toda a energia de Dax pareceu sumir. Ele virou-se com inteno de sair. Mas os seguranas o agarraram pelo brao e levaram-no ao elevador.
Slater fechou a porta que se comunicava com o hall e declarou:
	Chega de manifestaes em pblico.  E dirigindo-se a Erin:  Venha a minha sala. Agora.
	Mas eu...  Ela assustou-se.
Corajosamente, Sarah interferiu:
	Senhor, preciso falar com o senhor.
	Voc ser a prxima. Enquanto espera, pegue esses papis para que no caiam em outras mos desonestas. Erin, estou esperando. Ento, voc estava nisso tambm  ele disse  esposa assim que ela entrou.
Erin no poderia negar o fato, pois estivera envolvida. Mas sabia perfeitamente bem que Slater no ouviria toda a explicao, no naquele instante, quando seu dio vibrava, ou talvez nunca. Por isso apenas sacudiu a cabea e no disse nada.
	No admira voc ter passado tanto tempo nos cantos com Dax e Sarah no coquetel de ontem  noite. Droga, Erin! Eu sabia que a fonte do vazamento tinha de ter partido do topo. Mas pensar que voc...
	No espere que eu acredite que ficou chocado! Suspeitou de mim, Slater, ou no teria agido em minhas costas quando alterou os desenhos, em primeiro lugar.
	Suspeitei que algum, voc ou Sarah, pudesse ter sido pouco cuidadosa. Por isso decidi no deixar que ningum soubesse dos falsos desenhos. Mas nunca, em meus mais terrveis pesadelos, pensei ter sido intencional o descuido. A ideia de que voc...
Erin abriu a boca para falar, para se defender e a Sarah, mas sentiu pela expresso de fria do rosto de Slater que no adiantaria nada. Por que haveria ele de acreditar em seus protestos quando tinha a evidncia ante seus olhos?
E, mesmo que algum dia ele aceitasse a verdade, confiaria nela de novo?
Fizera aquilo tudo. Agira com a melhor das intenes do mundo, naturalmente, para impedir que Dax obtivesse as cpias autnticas, e para impedir que Sarah perdesse seu emprego.
Mas, tentando ajudar, Erin no apenas sacrificara sua carreira profissional como infligira um golpe mortal em seu j problemtico casamento.
	Por que diabos fez isso, Erin?  Slater insistia.  Por dinheiro? Ou por prazer? Talvez pelos encantos de Fritz MacDonald?
Erin sacudiu a cabea, mais por sofrimento do que tentando negar.
	No por Dax  Slater acrescentou.  No pode estar apaixonada por aquele...
	No!  ela quase gritou.
Errei, ela quis dizer. Mas fiz aquilo porque te amo...
E teria sua fraca explicao arrumado as coisas?, pensou com amargura. Se no aumentasse a ira dele, com certeza provocaria estrondosa e sarcstica gargalhada.
Seu orgulho lhe dizia que se retirasse antes de ser mandada embora.
	Importa-se se eu pegar meus objetos pessoais agora ou prefere mand-los para mim mais tarde?
Slater no se moveu.
Erin tirou do dedo a safira que ela amava tanto e a aliana e deixou ambos os anis sobre a escrivaninha. Ela estava quase na porta quando Slater falou:
	Erin... Para onde vai?
	No sei por que quer saber, senhor. A menos, claro, se pretende me evitar. Mas no se preocupe com isso. Tomarei todas as providncias para no incomod-lo com minha presena.
Ela saiu e fechou a porta. Ao passar por Sarah, esta disse:
Vou contar tudo a ele, detalhe por detalhe.
Mas no adiantar nada. Boa sorte para voc, amiga.
A nica coisa que Erin pegou antes de sair foi o vaso de cristal de Slater, o tal da rosa vermelha. Um dia ela considerara o vaso o smbolo da solidez, algo que duraria para sempre. Agora enxergava apenas a fragilidade do objeto. Como era fcil se quebrar, ver aquela beleza transformada em cacos que feririam a pessoa que os tocasse.
Tal qual seu casamento se quebrara, deixando atrs de si apenas dor.
Erin no pegou mais nada. O que deixara atrs, sabia, no importava. No precisava de lembranas materiais; suas lembranas seriam as recordaes dolorosas dentro do corao.
Ela andava sem ver onde estava indo, e tentava no pensar. Era mais de meio-dia quando se viu caminhando numa rua cheia de lojas de objetos antigos, a apenas algumas quadras do escritrio; mas sua mente estava a um milho de quilmetros longe de tudo. Foi ento que resolveu tomar algumas decises. No tinha roupas exceto as que usava, nem dinheiro exceto alguns dlares no bolso da saia, nem identificao ou cartes de crdito, e nem lugar para passar a noite.
Poderia ir para casa... no para o apartamento de Slater, naturalmente, mas para sua casa. Ela era ainda a proprietria da casa e, sendo ou no, tinha certeza de que seria sempre bem recebida na casa de Angela. Porm, Angela era parte do problema. Sua me estando l, faria uma srie de perguntas que ela preferia no responder.
E como se tudo aquilo no fosse suficiente, Erin teria de enfrentar seu pai tambm. Jack Reynolds atendera ao telefone cada vez que ela ligara para saber da me. Dava a impresso de que se mudara para l a fim de cuidar de Angela.
Por que no tivera ela o cuidado de, pelo menos, pegar sua bolsa antes de sair do escritrio?, Erin perguntou a si mesma. Com um carto de crdito poderia entrar num hotel e comprar coisas essenciais...
Mas pensar nas coisas que ela deveria ter feito era pr de lado o inevitvel. Ela no tinha outra escolha. Precisaria voltar ao apartamento de Slater, pegar alguma roupa e os dlares que deixara numa gaveta. E era melhor que fizesse isso logo, antes de terminar o dia de traBalho, ou correria o risco de Slater chegar.
S ao entrar no prdio deu-se conta de que o porteiro poderia impedi-la de entrar. Slater talvez tivesse dado ordens para que lhe proibissem a entrada, como tambm a de Dax.
Mas o porteiro recebeu-a amavelmente, sorrindo:
 Lindo dia, sra. Livingstone.
Erin concordou, sem ter muita certeza, contudo, se o homem falava naturalmente ou com sarcasmo. Era aquele um lindo dia?
Sua chave estava no escritrio, claro. Ela tocou a campainha do apartamento na esperana de que Jessup no tivesse sado. Mas logo a porta se abriu silenciosamente.
O mordomo parecia nervoso. Quanta coisa havia mudado desde que ela tomara o caf da manh naquele apartamento!
O que teria Slater dito ao criado sobre os acontecimentos?
Obviamente, Erin pensou, ele dera suas ordens.
Porm, na verdade, importava o qu Slater contara ao mordomo? A nica coisa que ela fora fazer l havia sido apanhar seus pertences, tudo o que levara consigo ao casar.
	Vim buscar minhas roupas, Jessup  ela disse friamente.
 S isso. No me importo se voc preferir fazer as malas ou me observar enquanto fao isso. Apenas quero o que  meu.
	Claro  Jessup respondeu.  No h necessidade de eu supervisionar.
	Mas prefiro que voc o faa.
Erin atravessou a sala. No havia vestgio do jantar da vspera, nem o perfume de Katrina...
Ontem  noite, ela pensou, minha maior preocupao foi Katrina e o modo como Slater a fitava. Como fora tola havia poucas horas atrs...
Erin evitou passar pela biblioteca, que sempre seria, para ela, uma lembrana que a faria sofrer, e foi pelas escadas do hall que tambm conduziam ao quarto principal.
Jessup no a seguiu.
	Aceita uma xcara de ch, sra. Livingstone?  ele lhe perguntou.  Talvez um sanduche?
Erin esquecera-se de que no comera desde o caf da manh, mas tambm no tinha fome.
	Um ch seria timo, Jessup.
Ela achou logo o dinheiro e colocou-o no bolso. Depois tirou a enorme mala do armrio e abriu uma gaveta. Ela ouviu um rudo de loua.
	Obrigada, Jessup. Ponha o ch na mesa, por favor. Sabe se minha blusa bege voltou da lavanderia?
	No tenho ideia  Slater respondeu.  Devo lhe dizer, Erin, que para evitar algumas perguntas tcnicas, essa sua no foi de muito sucesso.
Se ele a tivesse atacado de novo, Erin teria se retirado em vez de iniciar uma discusso. Se ele no houvesse dito uma palavra, tambm teria se retirado. Mas aquele comentrio indiferente a deixou furiosa. Tinha direito a seus pertences. E o que havia com o homem, afinal? Pensara que ela esperara encontr-lo em casa no meio da tarde? Que ela queria recomear a briga da manh?
	V para o inferno, Slater. No lhe pedi que subisse. Por que no mandou Jessup para agir como seu co de guarda, e no foi embora quando soube que eu estava aqui?
	Precisamos conversar, Erin.  O tom de voz dele era assustadoramente to gentil que a assustou mais do que qualquer gritaria.
	Conversar sobre o qu?
	Sobre detalhes.
	Sobre todas as exigncias de um divrcio, voc quer dizer? Se insiste, ok. No se importa se eu continuar fazendo a mala? No quero que pense que estou encompridando meu tempo aqui, de propsito. E, se est preocupado com o que eu possa pedir no divrcio...
	No, no estou. No que est pensando, Erin?
No de novo, Erin disse a si mesma. S que agora no no mesmo tom, ela se deu conta; o que fora uma acusao pela manh, soava mais como uma pergunta honesta no momento. Ouviria ele uma resposta honesta? No custava tentar.
	Dax aproveitou-se de Sarah e ameaou que iria contar a voc que ela fora a cabea da traio o tempo todo.  A explicao pareceu  prpria Erin muito fraca, e ela no sabia como continuar.  Ento eu...
	Voc sentiu-se to mal por causa de Sarah revelar se gredos que resolveu revelar tambm alguns.
Por que tivera ela esperanas?
	Chega, Slater! E, se no se importa, eu gostaria de terminar de fazer a mala e ir embora.
	Por que no me contou que alterara os desenhos, Erin?
Se ele soubesse que ela tentara contar... haveria ainda um pouco de esperana?
	Sarah lhe contou?  Erin sussurrou. E voc acreditou nela? Ouviu-a? Por que no a mim, Slater?
	Ela me contou. E comparei os fatos, linha por linha.  Ele sentou-se nos ps da cama.  Bem, Erin?
	Tenho certeza de que Sarah lhe revelou todas as suas razes e, no sabendo se Dax tinha outras fontes, tentava ganhar tempo para que pudesse lhe contar, ela mesma, o que acontecera.
	E voc, Erin?
	Queria que Sarah tivesse essa chance. Ela no  uma criminosa, Slater. Nem uma pessoa descuidada, acho. Dax usou-a, e ela est sofrendo muito com o que fez.  Erin suspirou.  E esperei que, quando Fritz MacDonald percebesse que recebera uns desenhos adulterados, Dax perdesse a credibilidade junto s pessoas para as quais vendia os desenhos.
	E voc nunca iria me contar, Erin?
	Claro que teria lhe contado assim que voc voltasse para casa. Mas achei melhor que Sarah o fizesse antes. E, nesse meio tempo, algum teria de fazer alguma coisa para impedir que Dax tivesse sucesso com seus planos. Achei, Slater, que impedi-lo de pr as mos nos desenhos autnticos de Brannagan seria um meio de Sarah reparar seu erro.
	Mas sabe que ainda no respondeu a minha pergunta, Erin? Por que no me contou esta manh sobre as mudanas que voc fizera nos desenhos?
	E voc teria me ouvido?
Slater no disse nem sim nem no. Mas Erin achou que ele entendera muito bem o que ela dissera.
	Acha que eu devo dar a Sarah outra chance?
	No cabe a mim decidir, senhor.
	Droga, Erin, quando vai parar com esse negcio de "senhor"?
	Por que se importa, neste instante, com o modo como o chamo? Mas se ajudar...
	Se ajudar no qu?
	No interessa. Como eu ia dizendo antes de voc me interromper, meu comportamento no foi um modelo a ser elogiado.
	Nesse particular  Slater disse secamente , concordo cem por cento.
A ltima esperana de Erin reduzira-se a cinzas. Contudo, achou que Slater parecia to infeliz quanto ela. O perfeito casamento de convenincia explodira em seu rosto. Erin no havia sido a perfeita esposa de um membro de corporativa. Transformara-se numa verdadeira inconvenincia.
	Voc nem ao menos pegou sua bolsa esta manh.
	E da?
	Ficou em meu escritrio enquanto eu gritava, depois deu as costas para tudo como se nada lhe servisse mais. E saiu.
	Eu no...
	Sabe o que eu pensei, Erin?
	Que eu fosse me atirar no rio Mississippi?  Ela sacudiu a cabea.  Eu no estava raciocinando bem para fazer deciso to fatal.
	Gritei com voc, Erin. Acusei-a. No quis ouvi-la. Afastei-a de mim. E nunca disse que te amava.
	No  ela confirmou.  E no pode esperar que no meio desta confuso toda eu acredite que de repente se deu conta de que se apaixonara por mim.
	Nada disso. No meio desta confuso eu estava furioso com voc. Amei-a muito antes de tudo isso, o que talvez ajude a explicar por que fiquei to furioso ao considerar que voc poderia ter tido boas razes para fazer o que fez.
Erin ficou atnita. No deu uma palavra. E Slater prosseguiu:
	Eu tinha tanta certeza, sabe, de que voc nunca me trairia. Um descuido da lngua, talvez, mas revelar informaes confidenciais de propsito, no. Ento, ao entrar no escritrio esta manh e ao deparar com Dax gritando com vocs duas, perdi a cabea.  Seu olhar era suplicante.  Finalmente, quando entendi com clareza o que voc fizera, e percebi que nosso casamento valia to pouco para voc, pois partira em vez de se preocupar em se defender...
	No! No, Slater. No foi por isso que parti. Fugi de suas ideias slidas, prticas, sensatas sobre casamento, e de sua convico de que a magia do amor se transformava sempre em melodrama... Bem, conclu que voc no planejava ficar comigo at eu me apaixonar; mas...
	Erin  ele disse e estendeu os braos.  Voc fez um trabalho maravilhoso com os desenhos. Se no tivesse ajudado Sarah, se sentiria to culpada que no conseguiria dormir  noite, garanto.
Erin no saberia dizer mais tarde como acabara nos braos dele. E, dentro de trinta segundos, enquanto Slater a beijava, nada mais a perturbou.
Quando enfim parou de beij-la, ele disse:
	No sei se uma culpa me impediria de dormir, Erin. Mas, se voc quiser me manter acordado  noite, sei de um meio muito eficaz...
	Voc sabe, no? Mas permitiu que Katrina dominasse seu corao.
	Acontece que no tinha mais um corao. Dei-o a voc, Erin.
	A primeira coisa que farei amanh .ser comprar-lhe uma aliana, Slater. Voc  um homem muito perigoso para ser deixado  solta, sem um sinal de alerta.
	Quase eu ia me esquecendo  disse ele, tirando do bolso os anis que Erin devolvera, e colocando-os nos dedos dela. Beijou-lhe a mo em seguida.  Todos os smbolos do mundo no poderiam me fazer sentir mais casado, Erin. Por isso mesmo, quando voc me perguntou se eu queria uma aliana, respondi que no era importante.
Slater beijou-a mais uma vez e em seguida levou-a para perto da lareira. Sentou-se numa poltrona e a ps no colo.
Erin aconchegou-se bem, saboreando o calor e a fora de Slater, o aroma do caf e da loo ps-barba. Apaixonei-me muito antes disso, ele dissera.
	Slater, mais ou menos h quanto tempo voc soube que me amava?
Ele no hesitou em responder.
	H seis meses e algumas semanas. Foi quando percebi meus sentimentos, entenda bem. H quanto tempo eu te amo,  uma questo diferente. Mais ou menos h um ano.
	Mas trabalho para voc h apenas um ano.
Ento, esse  o tempo, Erin.
Ela sacudiu a cabea, confusa.
	Quer dizer que quando props aquele casamento sensato, prtico, slido, sabia que me amava? E no disse nada?
	Reconheo-me culpado. Pensei, durante algum tempo, que voc iria me amarrar. Sinto muito.
	Falou que seria absurdo eu pensar que voc se apaixonara por mim  Erin comentou.
	Oh, no. Falei que era absurdo pensar que a carta de tia Hermione houvesse apressado meu casamento, O que queria que eu dissesse, Erin? Voc s via em mim o chefe, nunca o homem.
	Eu via o homem, sim, apenas no queria admitir. E acontece que voc era um excelente chefe, senhor.
	Verdade?
	Sim, querido.
	Eu no esperava que o casamento fosse como uma corda bamba de circo, Erin. Num minuto voc sorria, cheia de bondade, no minuto seguinte parecia uma gata. Era quente e incrivelmente sexy, e no minuto seguinte comeava a murmurar que havia sido louca...
	Voc ouviu isso tudo?
	Claro, no pensou que em minha noite de npcias, com voc em meus braos, eu fosse dormir. Pensou?
	Bem, o que quer que eu tivesse dito, Slater, tem de aceitar que no considerava meu casamento um piquenique. Na verdade, depois de ter assinado os papis, gostaria de poder mudar as regras do jogo.
	Considere-as mudadas, Erin  ele disse com muita calma.
	Vai levar algum tempo para perdo-lo por me deixar pensar que no entendia o que era amor. Na realidade, tive pena de voc quando disse  Cecile que fosse embora do apartamento.
	Por qu?
	Porque voc parecia to infeliz, como se o mundo tivesse desabado sobre sua cabea.
	Considerei-me descartando as mais importantes cartas de pquer que tinha nas mos.
	Que bom que depois apostou em mim.
	Mas, querida, voc sempre teve em suas mos todas as cartas de meu jogo.
	Mesmo? Pensei que fosse insistir em ter me dado todas as informaes para que eu pudesse decidir se era interessante ou no me casar com voc.
	E no achou boa a escolha, Erin?
	Isso no vem ao caso.
	No, no vem. Do que mais voc precisa? No que eu no pudesse ter recitado um poema sobre seus lindos olhos, e so lindos, mas imaginei que no ficasse quieta, ouvindo-me.
	Provavelmente no  ela concordou.  E o que diz da sugesto de tia Hermione que arranjasse uma anfitri? Usou isso de caso pensado para que eu comeasse a pensar em voc, no usou?
	Pior ainda, Erin. Eu a convenci a escrever aquela carta.
	Eu devia ter imaginado. Sempre achei que voc poderia ser o trapaceiro de maior sucesso de todo o continente, se decidisse a isso.
	Obrigado.
	Porm nunca pensei que algum influenciasse em tia Hermione.
	Mas precisa saber que artifcios usei. Disse-lhe que ensinaria todos os seus sobrinhos e sobrinhas a am-la e...
	Todos os oito?
	Ou seis. Ou um. Ou nenhum. O que eu quero  voc, Erin. Quero-a tanto, querida, que passei a considerar os que me cercavam como apenas parte do mobilirio. Incluindo Cecile. No que isso faa muita diferena a voc.
	Faz. Tive muito cime de Cecile. Contudo, mal posso acreditar que...
	Que eu te ame? Pergunte a sua me. Disse a ela que te amava naquela tarde quando voc comunicou nosso noivado.
	Mas me contou que fora Angela quem perguntara, e que voc falara o que achou que ela queria ouvir.
	 verdade. Mas no menti, eu te amava.
	Ento por isso minha me ficou to ansiosa que nos casssemos antes mesmo de ela ter alta no hospital.
	Essa parte no  verdade. Eu  que estava ansioso e usei sua me como desculpa.
	Naquela ocasio, Slater, eu j te amava muito, mas no queria confessar. E sua proposta fria, dizendo que daria a sua esposa um emprego fixo, me assustou.
	Falando em empregos e medos, acho que voc tem razo sobre Sarah. Pareceu-me bem horrorizada  ideia de perder o emprego.
	Vai lhe dar uma segunda chance, Slater?
	Vou. E estou bastante feliz por voc no ter tirado seus pertences do escritrio, porque ter muitas coisas importantes a fazer amanh. Obtivemos a posse dos desenhos de Bob Brannagan e os controles da Universal Conveyer.
	Voc conseguiu?!  Erin abraou-o.
	Enfim, vamos estar muito ocupados. A menos que voc prefira tentar o ramo da engenharia durante algum tempo.
	Por qu?  Erin encarou-o, atnita.
	Porque as inovaes que colocou nas cpias dos desenhos de Brannagan foram muito interessantes.
	Est brincando, senhor! No est?
	No quer um bnus?
	O nico bnus que me interessa  voc, Slater.  Ela ergueu a cabea oferecendo os lbios para o beijo.
	Isso pode ser providenciado. Antes que me esquea, se me chamar de senhor outra vez...
	O que voc me far?
	Para comear, isto.
Erin pensou que a beijaria com fria, como antes. Mas se enganara. Slater no a beijou com ternura, nem como um cavalheiro. Mas foi o beijo de um amante faminto, que prometia delcias incalculveis.
Momentos depois, Slater soltou-a para que respirasse.
	Bem?  ele disse.
	Entendi o que quis dizer  Erin gaguejou.  E, naturalmente, farei sempre tudo o que me pedir...  Ela esboou um sorriso travesso.  ...senhor.

FIM
